Plástico comestível


O plástico comestível, autenticamente brasileiro, foi criado pela Embrapa Instrumentação, no município de São Carlos (SP) e trouxe uma série de benefícios para a sua utilização, que vai desde a incorporação junto aos alimentos, em forma de embalagens, até práticas sustentáveis de reaproveitamento de rejeitos provindos da indústria alimentícia que seriam despejados e decompostos.

Plástico comestível

Segundo a própria Embrapa, o plástico comestível pretende trazer novas formas de consumo e conservação de orgânicos e surgiu através de um investimento de R$ 200 mil, destinada a Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio (Agronano). Com engajamento de pesquisadores e cientistas, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária destaca que o produto serve para inúmeras funções. Veja quais e como funciona o processo.

Utilização do material

O plástico comestível conta com inúmeras funcionalidades, mas a principal está na indústria alimentícia. Películas plásticas que envolvem uma pizza, por exemplo, podem ser agregadas ao alimento quando forem assadas – garantindo sua conservação antes da venda, não sendo necessário remover a película, como os plásticos industriais comuns de massas desse gênero que encontramos nos dias atuais.

Não apenas a possibilidade de consumir o plástico comestível foi trazida com essa invenção brasileira: o material também foi apresentado em alguns sabores, como tomate, espinafre, mamão e goiaba, entre outros. Com essas vantagens, o plástico pode ser utilizado não apenas como película protetora, mas também poderá contribuir no sabor e tempero de diversos alimentos advindos da indústria.

O chefe-geral da Embrapa Instrumentação, Luiz Henrique Capparelli, deu alguns exemplos de como ele poderá ser aplicado no cotidiano das pessoas: sachês que poderão ser dissolvidos na sopa, dando um tempero próprio ou até mesmo aves, como o peru, envolvidos em películas com sacos feitos da laranja, entre outras formas de utilização.

O plástico comestível tem, em sua origem, alimentos desidratados, como polpas de frutas que, junto a um nanomaterial utilizado pela Embrapa, torna a película muito semelhante ao plástico comum, utilizado em vários segmentos. A descoberta mostra que esse elemento orgânico pode ser até três vezes mais rígido que os plásticos comuns.

Sua fabricação segue um padrão: conhecido como liofilização, o processo segue as seguintes etapas:

– Desidratação;

– Congelamento, com a água passando do estado sólido direto para o gasoso (sublimação);

– Manutenção dos nutrientes;

– Junção ao nanomaterial (que dará a ‘liga’);

– O plástico é exposto a raios ultravioletas em uma fôrma que, em minutos, conclui seu processo de fabricação.

Redução do desperdício e práticas sustentáveis

Não apenas para dar um novo sabor ou ser utilizado como tempero, que os plásticos comestíveis possuem enormes benefícios. Dois pontos são fundamentais, segundo a Embrapa: a redução exponencial do desperdício de alimentos e práticas sustentáveis – visto que o plástico comum demora, em média, 400 anos para se decompor na natureza.
Alimentos reaproveitados

O desperdício de orgânicos, problema endêmico no Brasil, poderá ser reduzido com a utilização do plástico comestível. O chefe-geral da Embrapa cita frutas e verduras que, após um determinado tempo de exposição, seja por uma aparência não agradável ao consumidor ou seu próprio tempo de maturação, serão reutilizadas na indústria de plásticos comestíveis.

Com essa ideia, reduzem-se os custos de produção do material, visto que os alimentos serão reaproveitados, e isso poderá ser repassado ao consumidor na precificação. Com a viabilidade do projeto, parcerias entre indústrias do plástico que pode ser ingerido, e locais que vendem orgânicos, como feiras e supermercados, trazem benefícios a todos.

O plástico comestível também desponta como uma prática sustentável. Com a demanda crescente de materiais orgânicos e a redução do lixo, o material reduziria em grande parte o plástico convencional, derivado do petróleo. Com incentivos de governos e entidades para o processo, mais empresas se adequariam às necessidades – aumentando o investimento em pesquisas e, consequentemente, na capacidade de novos métodos de fabricação.

O projeto do plástico comestível demorou duas décadas de pesquisa junto a Embrapa Instrumentação. Entre 2014 e 2015, os pesquisadores divulgaram os primeiros resultados e, de lá para cá, novas formas de utilização do material vem sendo testadas, principalmente dentro da própria indústria alimentícia. Ainda não há um prazo para que eles cheguem às prateleiras do mercado, mas uma coisa é certa: o plástico comestível é totalmente seguro.

Reconhecido pela comunidade científica internacional, o material passa, no momento, por testes para aumentar sua durabilidade – principalmente em condições como a temperatura ambiente. O principal estudo, nesse ponto, é a utilização do polissacarídeo que forma a carapaça dos caranguejos, visto que esse componente tem diversas capacidades antibacterianas.

Mudança de cores no plástico, apontando o estado de conservação do alimento, ainda em fase de pesquisa, também poderão contribuir para evitar o consumo de alimentícios fora do prazo. Reduzindo assim o desperdício, doenças gastrointestinais causadas por microrganismos e, como dito anteriormente, reduzindo a enorme utilização de plástico convencional no Brasil – que chega a 4 milhões de toneladas anuais.