Polialelismo, Sistemas ABO e MN e Fator RH


Polialelismo  ou  polialelia

A determinação de caracteres humanos se dá por polialelismo, isto é, o caráter é determinado por um gene que apresenta mais de dois alelos. O polialelismo permi­te o surgimento de diversas combinações genotípicas e fenotípicas determinadas por dois alelos de cada vez, um de origem materna e outro de origem paterna. Para compreender essa situação, observe-se a repre­sentação abaixo, na qual a primeira opção seria o alelo A combinando-se com o Aj e formando as opções AÃ, AAX e AjAj (monoibridismo segundo Mendel). Com o surgimento dos alelos mutantes, que participam da for­mação de novos genótipos para certo caráter, pode-se encontrar um aumento nas classes fenotípicas. O formu­lário a seguir é um modo de facilitar esse cálculo. Por exemplo: a Drosophila melanogaster apresenta 32 ale-los para determinar a cor dos olhos. Então, pode haver 496 possibilidades de heterozigotos.

Polialelismo, Sistemas ABO e MN

Sistema ABO

O sangue humano é formado por uma parte líquida, denominada plasma, que representa 55% do volume to­tal, e os 45% restantes são formados pelos chamados ele­mentos figurados (hemácias, plaquetas e leucócitos). O sangue, além de desempenhar a função de trans­porte, realiza a atividade de defesa. Chama-se imunolo-gia, a ciência que estuda os mecanismos de defesa. Para se entender o sistema ABO, é preciso ter uma noção de como o corpo humano se defende. Quando o organismo é atacado por um agente estranho, por uma substância que pode ser uma proteína ou um carboidrato desconhe­cido, imediatamente o sistema de defesa é acionado para combater esse antígeno. Uma das respostas dadas pelo corpo é a utilização de proteínas altamente específicas no combate ao antígeno, os anticorpos.

O pesquisador Landsteiner percebeu, em 1901, que, ao misturar o sangue de um indivíduo com o plasma san­guíneo de outro, às vezes, ocorria um processo de aglu­tinação – as hemácias se amontoavam e formavam pe­quenos grumos. O que realmente estava acontecendo no experimento era uma reação antígeno x anticorpo. Ele descreveu os tipos sanguíneos A, B e O; já o AB foi descrito posteriormente por De Costello e Starli.

Conclui-se, então, que os antígenos do sistema são glicoproteínas localizadas na membrana das hemácias e são herdados dos pais. Eles são denominados aglutinogênios e podem ser de dois tipos: aglutinogênio A e aglutinogênio B. Uma pessoa com sangue A apresenta aglutinogênio A na superfície das suas hemácias; o san­gue B tem aglutinogênio B; o sangue AB é co-dominante, pois apresenta os dois tipos de aglutinogênios, e o sangue O (conhecido por zero) não tem aglutinogênios.

No plasma sanguíneo, encontram-se anticorpos que atuam sobre esses antígenos. os aniicorpob, dos aglutininas, são produzidos graças a uma reação contra bactérias ou plantas que produzem substâncias semelhantes aos aglutinogênios presentes nas hemácias. Uma pessoa nunca vai ter aglutinogênio e aglutinina do mesmo tipo, isto é, um indivíduo com sangue do tipo A apresenta aglutinina anti-B.

Polialelismo em coelhos

A pelagem dos coelhos é determinada por quatro ale-los múltiplos: C+, cch, ch e ca. O alelo C+ determina pelagem aguti (selvagem); o cch, pelagem chinchila; o ch, pelagem himalaia e o ca, albinismo.

Relação de dominância C+ > cch > ch > ca

Herança do sistema ABO

No polialelismo, há várias opções alélicas para ocu­par os dois locos possíveis em cromossomos homólogos. No caso do sistema ABO, há três opções alélicas: IA, IB e i (IO). A letra I, utilizada na construção dos genóti­pos, refere-se à isoaglutinação, que ocorre quando é re­alizada transfusão de sangues incompatíveis. A relação de dominância entre os alelos é a seguinte:  IA > i, IB > i. Os alelos IA e IB são co-dominantes, ou seja, IA = IB. No quadro a seguir estão indicados os respectivos fenótipos e genótipos.

Transfusão de sangue

No sistema MN, os anticorpos só são produzidos quando estimulados durante uma transfusão incorreta para eles, por isso não é considerado nas transfusões sanguí­neas. Esse sistema, utilizado em testes de paternidade, é regido pelas leis do monoibridismo com co-dominância. Quando se colocam os antígenos em contato com o sangue de cobaias, elas produzem anticorpos anti-M e anti-N. Abaixo, tem-se os respectivos fenótipos e genó­tipos para esse sistema.

Fator Rh

Tipagem  sanguínea

Para a determinação da tipagem sanguínea, podem-se realizar dois tipos de teste:
•         a presença de anticorpos no soro/plasma é iden­tificada utilizando-se reativos compostos de antígenos conhecidos, hemácias AeB (tipagem
reversa);
•         a presença de antígenos nas hemácias é identifi­cada usando-se reativos compostos  de anticorpos conhecidos, anti-A e anti-B (tipagem direta).

Sistema MN

Em 1927, Landsteiner e Levine descobriram os antí­genos M e N, de natureza proteica, na superfície das hemácias. Após Landsteiner ter descoberto os fatores dos sis­temas ABO e MN, descreveu, juntamente com Wiener, o fator Rh. Eles colocaram as hemácias do macaco rhesus (Macaca mulata) em coelhos (cobaias). Como, para os coelhos aquelas hemácias eram corpos estranhos – antí-genos -, as cobaias produziram anticorpos anti-Rh.

Quando o soro Rh entrou em contato com as hemá­cias de vários macacos rhesus, colocadas em lâminas de vidro, todas aglutinaram. Nos seres humanos, a reação positiva ocorreu em 85% dos casos e no restante da amos­tragem não houve aglutinação (reação negativa). Portan­to deve existir nas hemácias dos seres humanos de fator Rh positivo uma substância semelhante ao antígeno en­contrado nas hemácias dos macacos rhesus. Os indiví­duos portadores do antígeno Rh são representados feno-tipicamente por Rh+ (Rh positivo), e aqueles que não apresentam antígeno Rh são denominados de Rh” (Rh ne­gativo).

Os indivíduos Rh+ são dominantes e representados genotipicamente pelas letras R ou D, que é a simbologia mais atual. Na tabela a seguir, não se faz referência ao anti-Rh, pois, diferentemente do sistema ABO, em que o sangue A apresenta o anti-B, o portador do sangue Rh não tem o anticorpo anti-Rh. A produção do anti-Rh fica condi­cionada à realização de uma transfusão sanguínea em que o Rh” receba hemácias positivas e seja sensibilizado, ou a uma gravidez na qual a mãe seja negativa e o feto, positivo. Mas, nesse caso, a sensibilização da mãe está condicionada a uma hemorragia, para que o sangue dos dois entre em contato.

Transfusão

Sangue Rh~, por não ter antígeno, pode ser doado tanto para indivíduos Rh+ como para os Rh”. Sangue Rh+ só deve ser doado para indivíduos Rh+, pois ao ser do­ado pela primeira vez a um Rh~, este torna-se sensibili­zado e em uma transfusão posterior passa a ter incompa­tibilidade sanguínea.

Tratamento da D.H.R.N. (doença hemolítica  do  recém-nascido)

O tratamento da eritroblastose fetal (doença hemolí­tica do recém-nascido) depende do progresso da doença e de como o organismo da mãe Rh” reage ao antígeno (Rh+ do bebê). Na primeira gestação de filhos Rh+, es­tes, geralmente, são pouco afetados. O quadro se agrava após a segunda gravidez. Isso ocorre porque, aos pou­cos, o organismo materno é sensibilizado e cria uma memória imunológica (anticorpos Rh) para se proteger do antígeno presente nas hemácias fetais.

O bebê recebe sangue Rh”, que não apresenta antí-genos Rh e, por isso, não é destruído pelos anticorpos da mãe, que estão presentes no sangue do recém-nascido. Os anticorpos foram passados através da placenta, na chamada imunização passiva natural. Depois de certo tempo, as hemácias Rir transfundidas cumprem o seu ciclo vital, sendo fagocitadas pelo fígado (tecido con­juntivo reticuloendotelial), e a medula óssea vermelha produz novas hemácias Rh+.

Doença hemolítica do recém-nascido (eritroblastose fetal)

A doença hemolítica do recém-nascido ocorre quan­do a mãe é Rh” e o bebé é Rh+. Quando o sangue da mãe entra em contato com o do filho, ela é sensibilizada pe­las hemácias fetais e produz anti-Rh. As futuras gesta­ções dessa mulher receberão, através da placenta, o anti-Rh juntamente com outros anticorpos. Os filhos negati­vos, por não serem portadores do fator Rh, terão uma gestação sem problemas, mas os positivos desenvolve­rão o quadro clínico da eritroblastose fetal.

A D.H.R.N. pode causar a morte do feto durante o ‘ período gestacional ou logo após o nascimento. A eritroblastose fetal acarreta, também, em caso de sobrevi­vência, deficiência mental, surdez, paralisia cerebral e flicterícia, causada pelo excesso de bilirrubina no sangue pigmento gerado pelo metabolismo das hemácias e caracterizada pela cor amarelada da pele. Os bebés são encaminhados ao berçário para receber tratamento à base de luz néon, que degrada a bilirrubina, evitando maiores problemas.