A organização do sentido e do pensado


Imagine-se na rua, distraído, pensando nos seus problemas e, sem esperar, um velho amigo o encontra. Que surpresa!, você diria, alegre com o encontro.

Agora, imagine que você está pensando nesse amigo ou amiga, relendo urna carta ou vendo uma foto dele(a) e lamentando a ausência dele(a) e assim, de repente, ele(a) aparece na sua frente. Que coin­cidência!, você diria. E falaria: Eu estava justamente pensando em você!

E o rapaz – ou moça – poderia dizer: “É o des­tino”, ou “eu captei seus pensamentos” ou, simples­mente, “que coincidência…”

A organização do sentido

A construção dessas explicações é mais comum, porque se torna mais necessária nos acontecimentos trágicos. Recentemente os jornais noticiaram a his­tória de uma senhora que foi atingida pelo reboco de uma varanda de um apartamento de um edifício antigo do centro da cidade. Ela passava exatamente no momento em que o pedaço de cimento e pedra despregou-se do oitavo andar do prédio e acertou sua cabeça, provocando sua morte imediata.

Como os familiares puderam aceitar isso? Por que isso foi acontecer logo com ela? Uma tia relatou que havia sonhado com “des­graças” na família e o marido comentou que nos últimos dias ela estava “estranha”. Muito religiosos, disseram que “Deus sabia o que estava fazendo”.

Você concorda com essas explicações para o episódio? Caso não concorde, que razão você daria para o acontecido?
No excelente filme Por trás do pano, do diretor Luiz Villaça, a personagem Helena, interpretada pela atriz Denise Fraga, participa dos ensaios da peça Macbeth, de William Shakespeare e que signi­ficava para ela, Helena, a grande oportunidade de sua carreira, até porque ela estaria contracenando com um astro da dramaturgia nacional. Antes do início de cada dia de ensaio ela repetia o ritual de bater ritmicamente com o nó dos dedos da mão no assoalho do palco. Acreditava a personagem -embora ela não tenha explicado isso em nenhum momento do filme – que tal ritual garantiria o sucesso de seu trabalho e que, por outro lado, a ausência desse ritual impediria o sucesso por ela almejado. Em que momento ela assumiu esse com­portamento, em face de qual percepção, o filme não conta. Mas nós podemos imaginar. É provável que tenha sido por imitação de algum outro ator ou atriz de sucesso ou mesmo uma criação que antecedeu o início de algum espetáculo bem-sucedido e que, em face desse sucesso, foi repetido pela atriz antes do início de qualquer novo espetáculo.

Você já notou que Romário, o grande craque do futebol, sempre faz o sinal da cruz após qualquer jogada, não importa se bem-sucedida ou não? E que muitos treinadores mantêm o ritual de usar a mesma camisa ou calça antes de jogos decisivos, ou entrar só com o pé direito, etc?

Mas qual a importância disso? Você poderia dizer, e com razão, que superstições, crenças e sim­patias como as relatadas são comuns e conhecidas. A pergunta, no entanto, é: Por que agimos assim?

•      Qual o problema destacado pelo autor do texto?
•      Que relação existe entre o problema levantado pelo autor do texto e o assunto que estamos estudando? Vamos procurar fazer uma síntese das questões aqui levantadas, para podermos seguir em frente:
•      primeiro: muitas vezes não temos uma resposta imediata para identificar coisas que percebemos;
•      segundo: muitas das coisas que percebemos podem ser identi­ficadas deformas diversas e, em alguns casos, contraditórias.
•      terceiro: aquilo que chamamos de superstições, crenças e sim­patias são, na verdade, formas de explicar fatos e coisas que percebemos e não conseguimos dar uma resposta imediata.

Mas insistindo: Por que precisamos dar uma res­posta a tudo o que vemos?

Vamos nos valer mais uma vez de um texto do professor Rubem Alves e aproveitar para responder por que não achamos estranho que se premie o visi­tante de número 500 mil, mas pelo menos não seria comum imaginar premiar o número 937.421.

É por isso que tendemos sempre a dar explica­ções sobre o que vemos. E essas explicações distinguem-se em explica­ções do senso comum e explicações científicas.

Sem elas não conseguimos nos conduzir diante do emaranhado de percepções do real e muito menos somos capazes de dar continuidade a uma ação. Para continuar fazendo algo de forma razo­avelmente segura, temos de ter alguma previsão das coisas. Agora, para concluir provisoriamente, acompa­nhe o raciocínio abaixo:
•      não vemos exatamente o que a realidade nos mostra;
•      a nossa percepção só nos permite ver uma face do objeto de cada vez;
•      o que fazemos na verdade é sempre uma leitura da reali­dade;
•      muitas vezes não conseguimos fazer essa leitura de maneira imediata;
•      temos uma necessidade pela ordem, sem a qual é impossível fazer uma previsão das coisas.