Senso Crítico


Etimologicamente, crítica é um termo que vem do grego “kritikos”, cujo significado é “capacidade de fazer julgamentos”.

Senso Crítico

Podemos ampliar essa abordagem etimológica e dizer que a crítica é o processo que leva à formação de opinião sobre determinado objeto.

Filosoficamente, o senso crítico é tomada como a consciência reflexiva, com base no eu e no mundo.

Enfim, podemos dizer que a crítica é o ato de refletir sobre, com base em parâmetros diversos, que são intrínsecos ao seu autor, que levam à formação de uma visão pessoal, uma opinião, sobre o objeto da reflexão.

Devemos acreditar, ainda, que a qualidade e o caráter da crítica é determinada pelos parâmetros empenhados no processo de reflexão. Quanto mais conhecimento tem o autor da crítica sobre o tema, pode-se concluir que mais qualificado será o resultado.

Os parâmetros que dão substância ao processo crítico não se restringem, todavia, aqueles que estão relacionados ao conhecimento. Valores pessoais, como padrões morais, crenças, preconceitos e visão estética influenciam de forma intensa a formulação da crítica.

Devemos, ainda, lembrar que a crítica não é, à priori, uma formulação razoável. Pode, ao contrário, se estruturar sobre parâmetros frágeis e equivocados, levando a uma conclusão não satisfatória do ponto de vista da capacidade de agregar algo ao autor e à comunidade.

Por último, a crítica não é necessariamente pública. É, na verdade, um patrimônio do autor, que pode ou não ser compartilhada.

Quanto ao senso, o melhor sinônimo que lhe cabe é “percepção”. A forma de perceber as coisas é o produto do patrimônio cultural e intelectual do indivíduo, construído pelo conjunto de experiências e estímulos intelectuais e cognitivos que recebeu ao longo da vida.

Donde podemos deduzir que o senso crítico, em essência, é uma atitude diante da vida, do mundo e do eu, em que o indivíduo é cultural, cognitiva e intelectualmente instado a submeter as situações, ideias, leis, dogmas, fatos e comportamentos, entre outras variáveis da vida, a um julgamento com base no conjunto de seus valores.

Vamos definir valores não como padrões morais, mas tudo aquilo que compõe a edificação humana, o conjunto de todos os aspectos que levam o indivíduo a ser único.

Essa atitude questionadora, que não tem relação com rebeldia, é um ativo de alto valor para o ser cósmico e social, na medida que cultiva antes a dúvida que a certeza, levando ao desenvolvimento individual e coletivo, a partir da busca de respostas.

O homem dotado de senso crítico não se curva ao senso comum. Busca sempre suas próprias respostas, o que, mais uma vez, não se configura um selo de qualidade. Para que seja dotado de qualidade, o senso crítico precisa estar alicerçado na busca constante de conhecimento, no esvaziamento da mente de ideias preconcebidas, na humildade e qualidade de saber reconhecer na dúvida o maior dos benefícios, uma rica estrada a ser seguida rumo a novas dúvidas e mais conhecimento.

Senso crítico e bom senso

Isso de modo algum retira o mérito do senso crítico como atitude diante da vida. O simples ato de questionar, mesmo sem sólidos ou mesmo relevantes parâmetros é uma forma de não aprisionamento da mente, produto da eliminação do pensamento como força criativa e construtora. É, pois, um impulso que deve ser alimentado com o bom senso, que é a percepção razoável das coisas.

O indivíduo dotado de bom senso é aquele que tem referências para exercitar o senso crítico e tirar dele os melhores resultados. Bom senso remete a razão, ponderação e sabedoria, o que requer muito conhecimento e uma apropriação bem-sucedida das experiências.

Podemos, então, afirmar que o senso crítico é uma atitude diante da vida e o bom senso o conteúdo que confere assertividade e utilidade a essa atitude, sendo ambos necessários para que o ser humano seja um agente de transformação e multiplicação de riquezas de todo tipo, sejam elas morais, materiais ou intelectuais.

Como formar e qualificar o senso crítico?

É preciso, antes de tudo, perceber que o principal insumo do senso crítico é a dúvida. É a dúvida que move a razão, não a certeza. A certeza, ao contrário, paralisa.

O indivíduo que cultiva a dúvida se moverá para transformá-la em conhecimento. O indivíduo com senso crítico não aceita a certeza se isso não lhe parece razoável. Em estado de dúvida, ele faz perguntas. As perguntas são caminhos a serem seguidos.

Nesse sentido, é preciso que o indivíduo transforme em traço cultural individual a busca pelo conhecimento. A leitura é o principal canal de conhecimento, pois entrega o conteúdo de forma elaborada. Ao mesmo tempo, impõe ao leitor a utilização de todos os sentidos.

Os olhos e os ouvidos são elementos que devem ser valorizados mais que a boca, pois esta última emite, enquanto os demais captam. Quanto mais e melhores referências, mais capacitado o indivíduo estará para exercer o senso crítico de forma positiva.

Por fim, a escolha das buscas é essencial. Todo ser humano deve ter a verdade como busca permanente, por mais que essa seja a mais arisca das riquezas. Valores como a verdade, a justiça e a compaixão devem estar associados ao senso crítico, na condição de objetos de busca permanente. Não há sentido no senso crítico se não for uma busca útil para o crescimento do indivíduo e do meio que o cerca, o que só será possível com a disseminação do bom senso enquanto valiosa riqueza do ser humano.

Sendo assim, para concluir, a tarefa de cada um de nós é aprimorar cada vez mais o senso crítico; porém, mais importante que isso, é colocá-lo a serviço da construção do bom senso, o que vem com as buscas corretas e um grande apreço pelo conhecimento.