Brasil Colônia: Questão dos Engenhos e Açúcar


Atualmente no Brasil, não é raro encontrar relatos sobre a difícil realidade vivida em regiões agrícolas como o Nordeste, onde a exploração e a miséria são comuns. Os baixos salários, a exploração do trabalho infantil e as péssimas condições para os trabalhado­res fazem com que um grande número de famílias de “boias-frias” enfrentem uma realidade marcada pela pobreza e pela falta de esperança. Especificamente, nas lavouras de cana-de-açúcar das regiões do Nordeste e do estado de São Paulo, a exploração do trabalho no corte da cana, a concentra­ção de terras nas mãos de poucos proprietários, a monocultura são características que têm boa parte de sua origem na estrutura montada pelos portugueses ainda no período colonial.

Brasil Colônia

É óbvio que tal realidade atual vivida no Brasil não pode ser considerada somente como um resulta­do da ação dos portugueses e do sistema colonial. Entretanto, o estudo da formação dessa estrutura agrá­ria auxilia na compreensão de alguns aspectos de nos­sa sociedade, que permanecem muito semelhantes ao da estrutura montada pelos colonizadores, que visava ao lucro da Metrópole e dos grandes senhores de engenho.

Dentro do pacto colonial, a exportação do açúcar pernambucano para a Metrópole, que abastecia o mer­cado europeu, estava enriquecendo os cofres portu­gueses. Aliado a isso, o tráfico de escravos negros africanos para abastecer de mão-de-obra as fazendas da Colônia também proporcionava altos lucros a Por­tugal, visto que os comerciantes lusos que exerciam o tráfico pagavam impostos à Coroa. Esse fato foi uma das razões “humanitárias” de o governo português proibir a escravização dos indígenas (não recolhia impostos).

Para se produzir em larga escala, era necessário um número elevado de trabalhadores nas lavouras. O fato de o escravo representar menos despesas e maiores lucros explica o surgimento do escravismo moderno, que se utilizou primeiro da mão-de-obra indígena e, depois em maior quantidade, dos negros trazidos da África. Dessa forma, completava-se o quadro de sustentação da produção açucareira colonial, baseado na monocultura, no latifúndio e na escravidão.

O trabalho escravo permaneceu como sustentáculo da economia brasileira por pelo menos três séculos. Sua implantação ocorreu de forma gradativa, à medida que se expandiam os engenhos e, depois, as fazendas de café. Os europeus já tinham experiência escravista em alguns pontos do Mediterrâneo desde os séculos XIV e XV. Assim, no Brasil Colônia, ocorreu a formação de uma sociedade em que a grande maioria da população – composta por escravos e homens livres pobres – era excluída do controle das terras, das decisões nos engenhos e do vínculo com o Estado português.

A vida nos engenhos

Durante os dois primeiros séculos, a colonização do Brasil centrou-se na produção açucareira do Nordeste, apesar da existência de lavouras em São Paulo e no Rio de Janeiro. Entretanto, isso não significa que inexistissem outras atividades econômicas, mesmo que “dependentes” dos engenhos. Esse é o caso do tabaco, da pecuária, da extração da madeira e das atividades nas olarias.

De qualquer forma, o engenho era a principal unidade produtora, e em torno dele existia todo um universo de pessoas e de ocupações. A sociedade colonial do ciclo da cana-de-açúcar organizava-se a partir do engenho. No topo da pirâmi­de social ficava um poderoso grupo socioeconômico formado pelos brancos donos dos en­genhos, cujo poder era muito grande, dominando a vida colonial. Os escravos formavam a base da pirâmide social e eram responsáveis por todos os tra­balhos executados na colônia.

O engenho não era somente o local onde se pro­duzia o açúcar; era constituído ainda pelas habitações, pela capela e pelos lotes para a lavoura de subsistên­cia. A sociedade que surgiu da economia dos enge­nhos era rigidamente estratificada e não apresentava mobilidade social. O engenho era composto basicamente pela casa-grande (residência do senhor e de sua família), a ca­pela (local de celebrações e encontros sociais), a sen­zala (habitação rústica dos escravos) e a unidade pro­dutora que se dividia entre a moenda, as fornalhas e a casa de purgar.

Para se chegar ao produto final, a cana atravessava um longo processo de transformação. Nesse sentido, os engenhos provocaram uma série de mudanças na paisagem brasileira. A derrubada da floresta para o plantio e para o abastecimento das fornalhas contribuiu para uma imensa destruição da Mata Atlântica. Da mesma forma, as populações indígenas foram escravizadas ou expulsas. O branco conquistou seu espaço e impôs seus valores culturais, ainda que adaptados à realidade da nova terra. Exemplo disso está na importância da capela do engenho que expressava a religiosidade católica.
Escravos negros na fabricação de açúcar. Moagem de cana no engenho, de Hércules Florence.

A violência foi a forma de controle do trabalho escravo. Não somente a violência física, mas também a imposição de uma nova cultura, de uma hierarquia rígida e de valores extremamente racistas. Para o escravo não existiam perspectivas de ascensão social, pois a alforria era praticamente impossível, seu trabalho e sua vida seriam os mesmos do nascimento até a morte. Dessa forma, apesar de terem ocorrido diversas fugas e revoltas (quilombos), a escravidão negra cumpriu seu papel no sistema colonial e na produção do açúcar.

A sociedade açucareira no Brasil Colônia era constituída por dois grupos principais: senhores e escravos. Contudo, a quantidade de pessoas que habitavam o engenho não se restringia somente a esses grupos, pois existia um número considerável de elementos livres como capatazes, mestres de açúcar, soldados e pequenos agricultores que também dependiam dos senhores. Dessa forma, a autoridade máxima existente nessa sociedade estava concentrada nas mãos dos donos de grandes engenhos, ficando esse modelo de organização conhecido como família patriarcal.

Contando com um grande número de agregados e escravos, o engenho era um mundo que seguia suas próprias regras. Dentro de uma hierarquia rígida, o senhor dominava a mulher, os filhos e todos que estavam a seu redor. Os escravos trazidos da África eram acomodados em senzalas, em péssimas condições. A maioria tinha que trabalhar exaustivamente nas lavouras, e uns poucos desempenhavam trabalhos domésticos na casa-grande. Esses últimos, normalmente, tinham acesso a uma alimentação e vestuário melhores que os demais.

Além da exploração relativa à jornada de trabalho, os negros sofriam com brutais castigos corporais. As mulheres negras também tinham que suportar a violência sexual por parte de seus donos, que geralmente não reconheciam seus filhos com tais escravas. Diante de toda essa violência, muitos foram os casos de revoltas, fugas para quilombos e suicídios entre escravos negros.