Brasil, o segredo lusitano


Todo mundo aprende na escola que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, no dia 22 de abril de 1500. Segundo os livros colegiais, o português teria chegado ao Brasil acidentalmente, na busca por uma nova rota para a Índia liderando três caravelas com média de 1,2 mil homens. Avistaram Porto Seguro, na Bahia, onde desembarcaram e ficaram por 45 dias.

Brasil, o segredo lusitano

A bela carta de Pero Vaz de Caminha sobre suas primeiras impressões nas terras brasileiras é um marco do vínculo iniciado entre Brasil e Portugal, reforçando os documentos oficiais que indicam quando o Brasil foi oficializado como descoberto. Mas muitos historiadores consideram que há segredos lusitanos que omitem outras ocasiões, nas quais navegantes portugueses já haviam dado início à exploração do país.

Acontecimentos que antecedem o descobrimento do Brasil

Por muitos anos a ideia do descobrimento do Brasil por um erro de rota foi ensinado nas escolas brasileiras, mas o tema nunca deixou de ser incansavelmente debatido pelos historiadores. Há inúmeros documentos oficiais e indícios de que a história é bastante diferente da relatada e ainda há muitas questões sem respostas.

Os acontecimentos anteriores a 22 de abril possuem lacunas que aguçam a curiosidade, mesmo com o acesso a tantas informações e documentos históricos. A hipótese mais recorrente indica que Portugal já havia enviado outros navegadores para explorar o Brasil. A versão é endossada por várias evidências, como a descoberta das Américas em 12 de outubro de 1492, que imediatamente aguçou outros países a virem ao Novo Mundo.

Cristóvão Colombo era genovês e foi patrocinado pelos reis católicos da Espanha Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Orientado pelo mapa do italiano Florentino Toscanelli, Colombo de fato desejava buscar uma nova rota para as Índias. Antes dos reis espanhóis, a possível nova rota foi oferecida a Portugal, que se negou a patrocinar a navegação por acreditar que aquele caminho não chegaria ao local desejado.

Com a nau Santa Maria e as caravelas Nina e Pinta, Cristóvão Colombo demorou 61 dias para chegar as Bahamas, Cuba e Santo Domingo, ainda acreditando ser as Índias. E voltou mais quatro vezes a região em busca dos mercados indianos, enquanto ia descobrindo as Antilhas. Só em 1512 a sua descoberta foi oficialmente definida como um Continente, após a confirmação de Nunes Balboa que atravessou a América Central.

A descoberta de Colombo causou furor nos países europeus e também contestações portuguesas ao Novo Mundo. Até que a Espanha cede e assina o Tratado de Tordesilhas, para preservar o interesse de ambas as coroas e evitar o risco de futuros conflitos, dividindo as terras descobertas e as ainda desconhecidas com Portugal. Na divisão foi demarcado um meridiano a oeste da ilha de Santo Antão em Cabo Verde, até as ilhas das Caraíbas, recém-descobertas por Colombo. Portugal ficou com as terras a leste e a Espanha a oeste.

O possível segredo lusitano

Há fortes indícios endossados por documentos de que em 1498 D. Manoel, rei de Portugal, designou Duarte Pacheco Pereira para realizar uma expedição secreta a leste do Tratado de Tordesilhas. Duarte Pacheco Pereira chegou a terras localizadas onde hoje estão o Maranhão e o Pará, chegando até mesmo ao Rio Amazonas e à Ilha de Marajó.

Duarte Pacheco Pereira relata sua experiência nas terras brasileiras em trechos escritos no Planisfério de Cantino e em seu livro “Esmeraldo de Situ Orbis”, contendo também informações cartográficas. Neles há informações sobre o “mar Oceano”, “as muitas ilhas adjacentes povoadas por indígenas” e do “fino Brasil”, levado em seus barcos.

Alguns pesquisadores atribuem as ilhas encontradas aos Açores e acreditam que a exploração secreta não aconteceu de fato ou não tenha chegado ao Brasil. Esses mesmos pesquisadores atribuem a descoberta das terras brasileiras a um desvio de rota comandado por Pedro Álvares Cabral e não uma vinda intencional.

É fato que Portugal mantinha segredo de muitas de suas investidas marítimas, para evitar atiçar o interesse de outros países e um possível embate espanhol. Para isso, não divulgava e nem deixava registros dessas navegações, impedindo que haja confirmação dos fatos históricos.

Segundo essa teoria, a vinda de Duarte Pacheco Pereira foi realizada logo em seguida à chegada de Vasco da Gama a Portugal, que conseguiu encontrar uma nova rota para as Índias. A investida nessa exploração secreta tinha, como suposto motivo, informações sobre a vinda dos espanhóis Vicente Yañes Pinzón e Diego Lepe na costa do Nordeste, na região de Pernambuco.

É possível que não haverá uma resposta a questão do descobrimento do Brasil. Afinal, se Duarte Pacheco Pereira realmente chegou até o Brasil, ele tinha conhecimento de que eram terras novas? E o que significa o termo “descobrimento”, visto que os dicionários indicam “encontrar algo novo” e “terras virgens e inabitadas”, mas o Brasil já era habitado por uma grande população indígena que ocupava praticamente todo o país?

Se foi mesmo Duarte Pacheco Pereira o primeiro português a pisar no Brasil, ainda não se sabe. Mas é certo que foi através de Pedro Álvares Cabral que o mundo conheceu o Brasil e foi iniciada um doloroso processo de colonização, que escravizou indígenas e posteriormente os negros.