Anglicanismo, a Reforma Protestante inglesa


A Inglaterra teve um movimento reformista peculiar, que difere bastante dos movimentos protestantes no resto da Europa durante o século XVI. Aqui, a Reforma Protestante não se originou com teólogos criticando as práticas e doutrinas do clero católico, e sim com o posicionamento de um rei, Henrique VIII, que acabou por fundar o Anglicanismo em 1534.

Anglicanismo, a Reforma Protestante inglesa

Antes dessa ruptura, houveram críticos da Igreja Católica, como John Wyclif, teólogo que no século XIV criticou duramente o poder material dessa religião e se atreveu a traduzir a bíblia para o inglês. Já no século XVIII, Thomas Morus foi um dos principais críticos ingleses quanto às ações da Igreja.

Entretanto, o rompimento com o catolicismo veio apenas quando o Henrique VIII teve o pedido de anulação de seu casamento negado pelo papa Clemente VII. Até então, o monarca inglês era considerado um devoto católico, tendo sido, inclusive, declarado “Defensor da Fé” pelo papa Leão X, no ano de 1521, e chegando a assistir 5 missas por dia, além de defender o matrimônio.

A negativa do papa em anular seu casamento com Catarina de Aragão foi o estopim para iniciar a Reforma Protestante inglesa, mas houveram outras motivações para que ela fosse posta em prática. Na política, além das críticas existentes em relação à doutrina católica e aos gastos do clero enquanto o povo inglês tinha dificuldades e vivia na penúria, Roma e Inglaterra já tinham problemas políticos desde a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), quando homens de alta posição dentro da Igreja demonstraram inclinação aos franceses.

Já no campo econômico, a cisma religiosa permitiu confiscar os bens da Igreja, bem como destinar o dízimo, antes pago para a Igreja, à realeza. As terras que antes pertenciam a Roma foram vendidas ou dadas a nobres, fazendeiros e comerciantes, o que fez com que Henrique ganhasse a simpatia dos gentries, pequena aristocracia ligada ao comércio.

Na Inglaterra, as disputas políticas acabaram alimentando os atritos religiosos e teológicos.

A questão conjugal que originou o Anglicanismo

A Reforma Protestante que acabou por criar o Anglicanismo se deu após uma série de fatos, que ocorreram da seguinte forma:

• Antes de se casar com Henrique, Catarina foi casada com o irmão mais velho dele, Arthur.

• Ao ficar viúva pouco após o matrimônio com apenas 16 anos, ela alegou que o casamento não havia sido consumado pela pouca idade dos dois.

• O papa permitiu que se casasse com o então cunhado, Henrique.

• Catarina de Aragão e Henrique estavam casados há mais de duas décadas e ela não conseguiu gerar um herdeiro homem que sobrevivesse.

• Das seis vezes em que a rainha engravidou, apenas um bebê não nasceu morto ou morreu poucos dias depois – a Princesa Maria foi a única filha do casal a chegar à idade adulta.

• Henrique conheceu Ana Bolena, uma jovem dama de Catarina, educada, bela e culta, simpatizante do protestantismo.

• Sem herdeiros homens para assegurar a estabilidade do trono inglês e encantado com Ana Bolena, Henrique analisou a bíblia e encontrou um argumento para pedir a anulação do seu matrimônio com Catarina.

• Segundo a sua interpretação, as escrituras condenam o casamento entre cunhados, e por isso o seu casamento estava “degradado aos olhos de Deus”, e condenado a não gerar filhos.

• Henrique VIII teve a anulação do seu casamento negada em 1627 pelo papa Clemente VII.

• O principal motivo para negar o pedido do monarca inglês é que o papa tinha medo do sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos V.

• Carlos já havia aprisionado o papa anteriormente e saqueado Roma, e passou a lutar contra os protestantes, sendo um importante aliado da Igreja Católica.

• Ao perceber que o papa Clemente não cederia, Henrique resolveu obter a anulação em um tribunal eclesiástico nacional.

• Como resultado, o rei Henrique foi excomungado pelo papa, e o monarca decidiu romper definitivamente com a Igreja Católica.

• Em 1534, o Parlamento Inglês promulgou o Ato de Supremacia, estabelecendo o rei como líder supremo da Igreja da Inglaterra, que passou a se chamar Igreja Anglicana.

O que mudou com o Anglicanismo

As principais características no início do Anglicanismo foram:

  • Não reconhecimento do papa e a posição do rei como líder supremo da Igreja na Inglaterra.
  • O rei da Inglaterra também passa a ser o responsável pelas nomeações de cargos eclesiásticos.
  • A estrutura hierárquica e administrativa se manteve similar à Igreja Católica.
  • Manteve também a liturgia católica romana tradicional durante seu reinado.

O reinado de sua filha mais velha, Maria I, tentou restabelecer o catolicismo na Inglaterra e perseguiu protestantes. Após a morte de Maria, Elizabeth I, única filha de Henrique com Ana Bolena, assumiu o trono e consolidou a Igreja Anglicana, criando uma igreja autônoma e tolerante com diversas posições teológicas, agradando boa parte dos ingleses. O liberalismo é até hoje uma das principais características do Anglicanismo, que tem mulheres e homossexuais ordenados.