Graciliano Ramos e Dyonelio Machado: Obras e Características


Graciliano Ramos (Quebrângulo, AL, 1892 – Rio de Janeiro, RJ, 1953)

Graciliano Ramos é o mais importante romancista de sua geração. Foi quem levou a linguagem do romance a um grau de concisão e a uma forma de objetividade estética modelares. Suas frases e períodos tendem à brevidade e à secura, talvez como imitação do meio rural áspero e enxuto que ele retratou em Vidas Secas e São Bernardo. Raramente nele existe humor, ao contrário do que acontece em Machado de Assis, cuja técnica de certa forma seguiu. Seus romances exprimem ama tensão psicológica e existencial, de fundo político, que não dá tréguas ao leitor.

Graciliano Ramos e Dyonelio Machado

Em outros termos, Graciliano não é romancista de peripécias, não é propenso a ações heroicas ou românticas. A arte de Graciliano vem da capacidade de fazer certas situações dramáticas se desdobrarem a partir de si próprias e “falarem” pela voz do narrador. Os conflitos de seus personagens não são apenas psicológicos: eles têm um pé fincado na realidade de seu tempo e são detonados por uma situação socialmente impositiva.

Fez do romance uma forma de drama social tenso, em que o cenário é o atraso cultural, a seca, os grandes proprietários e o sertanejo desamparado pela lei; disseca a formação da burguesia nordestina, atrasada e fascista; é romancista de esquerda, mas não é panfletário ou <‘ chamado “realismo socialista”.

Seu texto não brinca com as palavras, não gosta de ambiguidades, nem metáforas injustificáveis ou excessivas. Graciliano escreve seco, frase enxuta, sem colorido. Não obstante não haver colorido, existe em Graciliano uma dosagem muito boa entre a secura descritiva e a denominação de “coisas” nordestinas de nome muito pouco conhecido no Sul, e parecem funcional com uma brisa na secura ou um leve tom colorido no deserto.

Obras

Caetés (1933);
São Bernardo (1934);
Angústia (1936);
Vidas Secas (1938);
Alexandre e Outros Heróis (1938);
Infância (1945);
Insónia (1947 – Contos);
Memórias do Cárcere (1953).

Como romancista até certo ponto dramático, dada a pressão social quase insuportável, sofrida por alguns personagens principais, Graciliano talvez seja um dos maiores artífices da espacialidade em nossa literatura. Não a espacialidade pinturesca, à Alencar, mas aquela que está ligada de modo áspero com a cultura ou com o drama de ser humano. Uma espacialidade dramatizada.

Mais uma vez, a narrativa se faz por confissão, em primeira pessoa: Paulo Honório, premido pela saudade e pela solidão, decide narrar o que é e o que tem sido sua vida. Trata-se de um retrato em branco e preto, mas sem forte autocríticas e sem grandes arrependimentos ideológicos. Entre o que fez e o que faz, seu caráter parece não ter mudado. Lembra de sua infância pobre, mendiga, Depois, com a adolescência se vão sedimentado a desconfiança e a astúcia oportunística, a indiferença pela sorte alheia, o egoísmo, e finalmente as atitudes autoritárias e intolerantes, o exercício e o hábito da punição indiscriminada, enfim, o temperamento fascistoide.

Tudo isso já estava embrionariamente nele, quando se apoderou da fazenda São Bernardo, às custas de um herdeiro ingênuo e perdulário de quem Paulo Honório retivera algumas promissórias. A fazenda, que vivia abandonada, torna-se um núcleo produtivo, enche-se de vida, sob a batuta de seu novo dono. Paulo Honório não se envergonha de lembrar até mesmo um assassinato, cometido por seu capataz, mas sob sua sugestão. A isso o leva sua sede de possessão das coisas. Por isso mesmo tudo ou quase tudo que ele conquistara se vai sumindo aos poucos, como seus amigos políticos, mas principalmente como sua esposa, a anternecedora e frágil Madalena, que se suicida um dia, impotente para resistir às crises de ciúme do marido.

Dyonelio Machado (Quaraí, 1895 – Porto Alegre, 1985)

A formação universitária de Dyonelio Machado aconteceu na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, especializando-se em Psiquiatria, circunstância que o acompanhará na carreira literária. O autor de Os Ratos exerceu também o cargo de redator do jornal Correio do Povo, valendo-se, assim, da veia jornalística que também vamos perceber presente em suas produções. O escritor exerceu ainda mandato de deputado no Rio Grande do Sul, antes da fundação do Estado Novo.

Um pobre homem (1927)
Os ratos (1934)
O louco de Cati (1942)
Desolação (1944)
Deuses econômicos (1966)
Prodígios (1980)
Endiabrados (1980)
Sol Subterrâneo (1981)
Nuanças (1981)
Fada (1982)
Ela vem do Fundão (1982)
Passos Perdidos (1982)
O estadista (1995)

É notória a percepção humana que o autor delega ao leitor na construção da personagem, pois este de forma circular vai desenvolvendo uma narrativa em que a paranoia ocupa um espaço definido na obra, não obstante a própria personagem serve como espelho para a sociedade que o encurralou. A crítica presente na obra está em consonância com as propostas modernistas da segunda geração, pois a opressão material presente em outros autores e produções, são confirmadas pontualmente na narração.

A construção do enredo de uma obra obedece a circunstâncias muito próprias, afinal o estilo do escritor registra uma funcionalidade que, materializada na prática,,terá ressonância referencial em outras produções. Em Os Ratos, a presença de um discurso fragmentado é fundamental para a trajetória da narrativa, afinal é este recurso que envolve o leitor numa cadeia miúda de atos e interpretações, além de sentimentos e reações específicas.

A brevidade dos capítulos, ao mesmo tempo em que aproxima, distancia o mesmo leitor, pois a densidade exigirá uma reflexão em torno da singularidade e circularidade da existência humana. Há na obra outros caracteres compositivos que a enriquecem como a intertextualidade, a análise psicológica, sobretudo na visível introspecção da personagem, a linguagem despojada de artificialismo, a originalidade temática, afinal o autor consegue em vários momentos reproduzir a angústia velada que vive a personagem-protagonista num único dia. O autor se vale de alegorias políticas, de acordo com o momento vivido, explorando assim diversas possibilidades narrativas. No caso específico de Os Ratos é interessante observar a metáfora instituída a partir de uma existência degradada pela alienação, com a perda da própria substância