Semana de Arte Moderna: Mudanças e Características; Oswald de Andrade – Obras


“Ao público chocado diante da nova música tocada na Semana, como diante dos quadros expostos e dos poemas sem rima (…) sons sucessivos, sem nexo estão fora da arte musical: são ruídos, são estrondos; palavras sem nexo estão fora do discurso: são disparates como tantos e tão cabeludos que nesta semana conseguiram desopilar os nervos do público paulista, que raramente ri a bandeiras despregadas.”

Semana de Arte Moderna

“Felizmente foram vingados os brios paulistas na última pagodeira da Semana Futurista! Foi preciso fechar as galerias para evitar que o palco se enchesse de batatas. Mesmo,porém, com as galerias interditadas, a coisa de convertia em enorme pateada, se houvesse um dos tais discursos nefelibatas e sem nexo como o das noites anteriores. A plateia estava preparada para os receber como mereciam.”

O VELHO e o NOVO

Enfrentando as vaias e as vozes da tradição histérica das senhoras e dos senhores bem pensantes, os jovens modernistas, com sua irreverência e sua inquietude, perceberam que para construir o novo era preciso demolir os alicerces desgastados da cultura oficial e burguesa. A seguir dois comparativos, entre as propostas modernas e tradicionalistas.

Pintura

Vemos neste quadro um bom exemplo do academicismo, com Almeida Júnior aplicando plasticamente uma certa concepção literária: descrição fotográfica da realidade, uso de noção tradicional de perspectiva, culto do claro-escuro em curvas amplas e superfícies imersas em luz, visando a um acabamento perfeito. Moça faz parte da melhor fase de produção alcançada por Almeida Júnior na década de 1980, onde se destaca a tela Caipira Picando Fumo, bastante elogiada por Monteiro Lobato. Anita Malfati, cuja característica é inspirada no Expressionismo, valendo-se de tons coloridos, de “cores caipiras” (amarelo, roxo, verde-grama), num claro rompimento com a tradição de figura em pose bem comportada.

Padre Jesuíno de Monte Carmelo (1946) e um grande número de opúsculos, folhetos, etc., reunidos em volumes, nas Obras Completas. Consciente de sua destinação, Mário de Andrade injetava em tudo que fazia um senso de problemática brasileira, daí sua investida no folclore. A sua poesia, basicamente se desdobra em duas vertentes: o desvairismo futurista de São Paulo (Paulicéia Desvairada) e o tom acaboclado em sintonia direta com as tradições populares brasileiras (Clã do Jabuti). Amar, verbo Intransitivo é um romance desenvolvido a partir dos processos psicanalíticos freudianos mais típicos: recalque, sublimação, regressão, fixação e os demais desvios provocados pela maior ou menor aproximação da libido. Mário narra a história de uma governanta alemã, Fraulein, contratada para dar “lições de amor” ao jovem Carlos de Sousa Costa.

Firmemente disposto em experimentar processos de expressão para chegar a uma língua “brasileira”, pesquisou sempre fórmulas novas, que o levaram a forjar regras pessoais de gramática. Chegou até a anunciar um livro futuro que se chamaria Gramatiquinha da fala brasileira. Deixava de acentuar certas palavras (“ninguém, também, Belém”), outras ele acentuava (“porém, ruim”), grafava certos termos a partir do registro oral (“milhor, siquer, ólio”), formas de virgular e pontuar que definem no conjunto uma individualidade de estilo bem marcante. Procurou aproximar a poesia da música, desenvolvendo a teoria da “polifonia poética” que consistia na invenção do verso harmônico ( = superposição de palavras soltas: “A cainçalha… A Bolsa… As jogatinas…”), em oposição ao verso melódico tradicional.

Macunaíma é a própria anatomia carnavalesca e primitiva de nossa formação e de nossa história. Estão nesse livro os contra sensos e absurdos do homem brasileiro em sua alegria e melancolia, tudo tratado com modernidade de expressão e visão. Irreverente, Macunaíma é também uma paródia dos Peris e Jaguarés do Romantismo idealizante. Contos Novos colocam Mário de Andrade como um dos mais importantes realizadores deste gênero. Fundindo Psicanálise com Socialismo, Mário focaliza com vertical sensibilidade relações familiares e sociais tanto no contexto urbano (predominantemente) como no rural. A obra constitui-se também num vigoroso laboratório de expressão verbal, pesquisando novos processos de organização léxica e sintática.

losé OSWALD DE Souza ANDRADE (São Paulo, 1890-1954)

POESIA

Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswaid de Andrade (1927)
Poesias Reunidas (edição póstuma)

ROMANCE

Os Condenados (I – Alma; II – Estrela do Absinto; e III – A Escada; 1922 a 1934)
Memórias Sentimentais de João Miramar (1924)
Serafim Ponte Grande (1933)
Marco Zero(I – A Revolução Melancólica; II – Chão, 1943 e 1946)

MANIFESTOS, TESES E ENSAIOS

Manifesto Pau-Brasil (1925) Manifesto Antropófago (1928) A Arcádia e a Inconfidência (1945) Ponta de Lança (1945) A Crise da Filosofia Messiânica (1946) A Marcha das Utopias (1966).

TEATRO

O Homem e o Cavalo (1934)
O Rei da Vela (1937)
A Morta (1937)
O Rei Floquinhos (Infantil, 1953)

MEMÓRIAS

Um Homem sem Profissão (1954)

Crônicas

Telefonemas (edição póstuma)

CARACTERÍSTICAS IDEOLÓGICAS

De gênio fortemente intempestivo, tinha na riqueza do pai forte lastro para sustentar suas loucuras como, por exemplo, adquirir o primeiro cadiliac equipado com cinzeiro, beber champagne no sapato da famosa dançarina Isadora Duncan, em excursão ao Brasil.