Gregório de Matos e o Barroco Brasileiro


O Barroco brasileiro

Durante o século XVI, houve um processo de trans­plante cultural e as características da Colônia não permi­tiam ainda o desenvolvimento de uma produção literária sistemática e intensa. Como vimos, as manifestações literárias desse período limitaram-se às obras catequéticas de Anchieta e a documentos de caráter mais informativo do que propriamente literário.

Gregório de Matos

Assim, podemos dizer que a literatura brasileira inicia-se realmente no século XVII — e inicia-se como literatura barroca. Levando em consideração as condições socioculturais da Colônia (pouquíssimas escolas, inexis­tência de imprensa, população ainda muito rarefeita e, em sua maioria, analfabeta), o número de autores e obras ao longo desse século, sobretudo na segunda metade, já é bastante significativo.

Os poetas e a poesia predominam quase absoluta­mente — a prosa só se desenvolveria efetivamente com o Romantismo, no século XIX. Os principais modelos de nossos autores eram sobretudo Camões, cuja influência perdurou, intocável, até o século XVIII, e os poetas barro­cos espanhóis, destacadamente Góngora (modelo cultista) e Quevedo (modelo conceptista).

Considera-se como marco inicial do Barroco brasi­leiro a publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira, em 1601. A longa duração dessa escola estende-se até meados do século XVIII (o ano de 1768 marca oficial­mente o início do Neoclassicismo).

Manoel Botelho de Oliveira: Advogado formado em Coimbra. Sua poesia, de es­tilo cultista e escrita em português, espanhol, italiano e latim, foi reunida no livro Música do Parnaso, publicado em 1705. A descrição exuberante da natureza faz com que muitos considerem o poema À Ilha de Maré como uma das primeiras manifestações poéticas do nativismo brasileiro.

Frei Manuel de Santa Rita Itaparica (1704-1768): Poeta menor, escreveu o poema sacrotragicômico Eustáquioss (narração da vida de Santo Eustáquio) e a Descrição da Ilha de Itaparica, ambos em estrofes de oitava rima. O segundo é uma imitação de À Ilha de Maré.

As academias

Na primeira metade do século XVIII, criaram-se, a exemplo dos países europeus, as primeiras Academias da literatura brasileira. Essas associações tiveram importante papel como focos de irradiação e socialização de cultura e de literatura, sobretudo se considerarmos as precárias condições socioculturais da Colônia. Não obstante, as obras produzidas pelos acadêmicos têm escasso valor literário e interessam hoje mais como documentos para a história de nossa evolução cultural.

As principais foram a Academia Brasílica dos Es­quecidos (Salvador, 1724-25), a Academia Brasílica dos Renascidos (Salvador, 1759) e a Academia dos Felizes (Rio de Janeiro, 1736-40).

Período: séculos XVII e XVIII

•    Início: 1601 — Prosopopeia, de Bento Teixeira.
•    Término: 1768 — Início do Neoclassicismo.

Principais autores

Além do Pé. Antônio Vieira, que pertence às litera­turas portuguesa e brasileira e já foi estudado no capítulo anterior, e de Gregório de Matos, que estudaremos a seguir, destacam-se os seguintes autores:

• Bento Teixeira (1560/61-1600)

Nasceu na cidade do Porto. Os dados disponíveis de sua biografia são controvertidos: a data de sua vinda para Pernambuco, a profissão de mestre-escola, a acusação de ter assassinado sua mulher. Em 1599, foi preso e levado para Lisboa, onde foi condenado pela Inquisição à prisão perpétua, vindo a falecer no ano seguinte. Escreveu o poema épico Prosopopeia (1601), de importância mais histórica que literária.

Gregório de Matos

O principal poeta do século XVII — e, para muitos estudiosos, o principal de toda a literatura colonial brasi­leira — merece uma atenção especial e um estudo mais detalhado. Apesar dessa importância, sua obra permaneceu completamente inédita até meados do século XIX, tendo sobrevivido, até então, em cópias manuscritas, feitas por colecionadores do século XVIII. Apenas no século XX empreenderam-se tentativas de publicação de suas obras completas: a edição da Academia Brasileira de Letras (6 volumes, 1923-1933) e a edição de James Amado (7 volu­mes, 1968). Ambas insatisfatórias, nosso poeta aguarda ainda que se faça uma edição com critérios rigorosos, a partir dos diversos manuscritos conservados em bibliotecas brasileiras e de outros países.

As múltiplas faces de Gregário de Matos

Por causa de suas sátiras e de sua poesia erótica, às vezes francamente pornográfica, Gregório de Matos Guerra ficou conhecido na história da literatura como o “Boca do Inferno”. Sendo, porém, um autor barroco, sua obra é múlti­pla, surpreendente e contraditória, incluindo considerável produção de poesia lírico-amorosa e de poesia lírico-reflexiva de temática moral e religiosa. Se sua poesia satírica resvala muitas vezes para uma linguagem desbocada e para o achincalhe de seus desafetos, outras vezes é séria ( e de intenção moralizante, como se pôde ver no soneto À cidade da Bahia. Sua poesia burlesca, às vezes ingênua e brincalhona, outras, extremamente maliciosa, devia fazer a alegria das festas e reuniões nos engenhos do Recôncavo.

Poesia sacra

Essa temática abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemoração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral e religiosa. Alguns sonetos tornaram-se antológicos e figuram entre os mais conhecidos e estimados da literatura brasi­leira, como o que você lerá a seguir.

Poesia lírico-amorosa

A temática amorosa na poesia de Gregório de Matos apresenta as mesmas contradições barrocas que verifi­camos no conjunto de sua obra, variando da mais pura e delicada idealização do amor a um realismo erótico de linguagem crua e direta.