Literatura Atual: Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca


O ensino de Literatura tem-se baseado na periodicidade dos estilos de época (Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e Modernismo). E qual seria o estilo predominante na Literatura atual? A resposta não é simples porque não houve novidades na linguagem como as de Guimarães Rosa e Clarice Lispector que delimitassem, ou iniciassem, um período literário. O que há, hoje, é um aprimoramento de propostas realistas, naturalistas, parnasianas e simbolistas convivendo com a singularidade de alguns autores como o contista Dalton Trevisan e o poeta João Cabral de Melo Neto.

Literatura Atual

Lygia Fagundes Telles (1923)

Aliado a isso está um texto predominantemente fragmentado, elíptico, de foco narrativo às vezes propositadamente ambíguo. Entre os temas da Literatura atual pode-se destacar a violência em suas diversas formas, a ditadura das décadas de 1960 e de 1970, o memorialismo, o narcisismo e o hedonismo, a solidão, o homem emparedado nas grandes cidades, o mundo rural versus o mundo urbano, as minorias raciais e sexuais, o realismo mágico, a metalinguagem e a condição humana.

Algumas obras:

• Ciranda de Pedra (1954) – romance Verão no Aquário (1963) – romance
•        Antes do Baile Verde (1970) – contos As Meninas (1973) – romance Seminário de Ratos (1977) – contos Filhos Pródigos (1978) – contos
•        As Horas Nuas (1989) – romance

O mundo privilegiado dos contos e romances de Lygia Fagundes Telles é o feminino, sem ser feminista. Em suas narrativas procura retratar a alma feminina em um mundo, principalmente o urbano, em transformação. Suas personagens nascem dominadas pela solidão, como se esse sentimento fosse próprio da condição humana, portanto atávico, não-adquirido. As mulheres criadas por Lygia estão à procura inútil de um lugar ao Sol e se constituem como seres propensos à infelicidade, à mutilação física e (ou) psicológica, pois o mundo em que vivem as despersonaliza e não permite que se completem como mulheres ou seres humanos. Portanto, a visão de Lygia sobre a existência é claramente pessimista. Para ela, o amor seria uma possibilidade de salvação, mas ele não existe.

Dalton Trevisan (paranaense, 1925)

Algumas obras:

•        Novelas Nada Exemplares (1959)
•        Cemitério de Elefantes (1964)
•        Vampiro de Curitiba (1965)
•        Mistérios de Curitiba (1968)Desastres do Amor (1968)
•        A Guerra Conjugal (1969)
•        Rei da Terra (1975)
•        Lincha Tarado (1980)
•        A Polaquinha (1985) – romance
•        Em Busca de Curitiba Perdida (1992)
•        Ah, É? (1994)
•        Dinorá (1994)
•        Capitu Sou Eu (2003)
•        Macho Não Ganha Flor (2006)

O sedutor velho que baba nos seios da mocinha, a viúva neurótica e ávida de sacanagens, o corcunda enjeitado, a moça que tinha relações sexuais em pé, a moça frágil sendo forçada ao sexo (mas não muito) pelo negro enorme, o Nelsinho, escriturário, de bigodinho, gravata borboleta e unha comprida no dedinho mindinho, a professora solteirona aposentada e decadente, os advogados de anel de formatura “cantando” meninas de ponto de ônibus, os joões e marias da classe média baixa, o pinguim em cima da geladeira, o bujão de gás coberto por um plástico rendado de vermelho, o sagrado coração de Jesus na parede, os infelizes, as mulheres degradadas, os homens à procura de afirmação de macheza, o cafajeste, o pedófílo, a fllhinha precoce, o cotidiano mole e rotineiro, os cantos, os bares sujos, o escuro, as prostitutas, o abandonado, o esquerdo, o desprezado – esses são alguns dos elementos que formam o mundo sombrio do contista paranaense Dalton Trevisan.

Prendendo-se ao mito do vampiro (Drácula), personagem condenado a jamais viver, a jamais morrer (danação) e a multiplicar sua condição de incompleto e infeliz às suas vítimas, Trevisan tematiza a “educação sentimental” do homem, educado de forma cafajeste para provar que é macho e assim conseguir status na sociedade; além disso, ele coloca joões, marias, chicas e nelsinhos em uma existência morna, sem perspectivas e, como o vampiro, condenados a jamais se realizarem como seres humanos.

O estilo de Trevisan, como o dos grandes escritores, é singular. Suas frases são incompletas, fragmentadas, sincopadas, sintéticas, propositadamente cheias de lugares comuns e clichês.

MINISTÓRIA  173

Seu João, perdido de catarata negra nos dois olhos:
–   Meu consolo que, em vez de nhá Biela,
eu vejo uma nuvem.

MINISTÓRIA 179

–   Se você me deixa, ô cara, quem espremeas tuas espinhas nas costas? E recorta no teudedão, com tanto amor, essa unha encravada?
Rubem Fonseca  (mineiro, 1925)

Rubem Fonseca (1925)

Algumas obras:

•        Lúcia McCartney (1970) – contos
•        Cobrador (1970) – contos
•        Caso Morei (1973) – romance
•        Feliz Ano Novo (1975) – contos A Grande Arte (1983) – romance Bufo e Spallanzani (1987) – romance
•        Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos(1989) – romance
•        Agosto (1991) – romance
•        Romance Negro e Outras Histórias (1992) – contos
•        Selvagem da Ópera (1994) – romance
•        Buraco na Parede (1995) – contos
•        E do Meio do Mundo Prostituto só Amores Guardei ao Meu Charuto (1997) – novela
•        Histórias de Amor (1997) – contos
•        Doente Molière (2000) – romance
•        Secreções, Excreções e Desatinos (2001) – contos

Rubem Fonseca, ao lado de Dalton Trevisan, é considerado um dos melhores contistas brasileiros da atualidade. Exímio contista e o mais festejado romancista da crítica literária atual, Rubem Fonseca também é roteirista de cinema. Fonseca levou a seus contos a guerra que acontece nas ruas, nas famílias, nos apartamentos e nas pessoas. São histórias de executivos, cientistas, cineastas, detetives, religiosos, mulheres bonitas e liberadas, advogados, assassinos profissionais, miseráveis e desajustados, isto é, hedonismo, Brasil contemporâneo e sua violência.

A técnica da narrativa imita a dos romances policiais ingleses, especialmente os de Conan Doyle (Sherlock Holmes) e de Agatha Christie. Normalmente seu discurso é em primeira pessoa e o narrador é protagonista. Rubem Fonseca cria cada personagem com seu próprio código de conduta e de linguagem, criando assim uma profusão de tipos e de linguajares admiráveis. No dizer de Alfredo Bosi, um dos maiores estudiosos da literatura brasileira, a leitura de uma obra de Rubem Fonseca provoca no leitor um duplo prazer: uma leitura agradável, envolvente e uma visão cinematográfica das ações.

Murilo Rubião (mineiro, 1916-1991)

Algumas obras:

•        Ex-Mágico (1917)
•        Os Dragões e Outros Contos (1953)
•        Pirotécnico Zacarias (1974)
•        Convidado (1974)
•        A Casa do Girassol Vermelho (1978)

André Breton, o francês do Surrealismo, afirmava que “o que há de mais admirável no fantástico é que o fantástico deixou de existir; agora só há a realidade”. Os contos de Murilo Rubião enquadram-se no chamado realismo mágico ou realismo fantástico, uma tendência na literatura latino-americana contemporânea, também presente nos contos de José J. Veiga (Os Cavalinhos de Platiplantó).

Bárbara, (personagem do conto homônimo que faz parte de O Pirotécnico Zacarias}, por exemplo, é uma mulher imensamente gorda que engordava ainda mais na proporção em que seus pedidos ao esposo eram satisfeitos; não contente com tudo o que havia ganhado, pediu uma estrela e o esposo foi buscá-la. Esse conto é uma crítica ao consumismo desenfreado e insatisfeito da classe média. Em Os Dragões, os monstrinhos chegam a uma cidade do interior e, aos poucos, adquirem os vícios humanos.

Realismo mágico (ou insólito) é uma alegoria que não se limita apenas a distrair o leitor; ele assume uma função eminentemente crítica usando o sobrenatural para remeter o leitor à realidade, muitas vezes mais fantástica que a fantasia.