Modernismo – Segunda Geração: Características, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Cecília Meireles e Jorge de Lima


Foi o Alguma Poesia, livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade publicado em 1930, que iniciou a segunda fase do Modernismo. A poesia desse tempo se distingue muito da poesia dos modernistas de 1922. Em se tratando dos temas, por exemplo, assim como a primeira fase privilegiou a brasilidade – coisas brasileiras, valorização do brasileiro em todos os seus aspectos – a segunda deu importância às coisas do indivíduo ou do homem, ao conflito do eu versus o mundo, a uma poesia de caráter universal. Já no aspecto formal, a segunda geração continuou a usar o verso livre, o verso branco, a prosifícação do verso, como os poetas da Semana, mas também retomou alguns elementos poéticos fixos como o soneto.

Modernismo

Características gerais

•    Aproveitamento do verso livre e do poema sintético.
Carlos Drummond de Andrade, “Cota Zero”.
•    Prosifícação do verso (verso prosificado).
Carlos Drummond de Andrade, “Quadrilha”.
•         Ressurreição do soneto na poética de Vinícius deMorais, Cecília Meireles e Mário Quintana.
•         Preocupação com o ser humano, com a situação do mundo e com a consciência da fragilidade do eu.
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo
Carlos Drummond de Andrade, “Sentimento do Mundo”.
•         Retorno do misticismo simbolista e a presença de uma poética de propostas cristãs.
•         O cotidiano, o presente, a realidade, os tempos difíceis, a proposta de solidariedade.
Carlos Drummond de Andrade, “Mãos Dadas”. Humor como forma de adoçar o amargo da existência.
•      Preocupação com o social.

• Alguma Poesia (1930)
•         Brejo das Almas (1934)
•         Sentimento do Mundo (1940)
•         A Rosa do Povo (1945)
•         Claro Enigma (1951)
•         Contos de Aprendiz (1951) – contos
•         Fazendeiro do Ar (1953)
•         Fala Amendoeira (1957) – crônicas
•         A Bolsa e a Vida (1962) – crônicas e poesia
•         Lição de Coisas (1962)
•         Boitempo (1968)
•         As Impurezas do Branco (1973)
•         Poder Ultrajovem (1972) – crônicas
•         Amar se Aprende Amando (1986)

Mais que assimilar as conquistas da Geração de 1922, Drummond as depurou. Desprezou o nacionalismo folclórico e exótico em busca da maturidade estética, que seria atingida pela incessante procura e aprofundamento de temas e da visão do mundo, bem como da precisão vocabular.

“Poema de Sete Faces”

Trata-se do poema que abre o livro Alguma Poesia. Por que sete faces? São sete estrofes construídas segundo a técnica cubista (aparentemente são estrofes que não se relacionam, são descontínuas porque fragmentadas) e mostram sete posturas que Drummond tomou diante de sua poesia ao longo dos anos.Perceba a intertextualidade (diálogo com a Bíblia) e a ideia de gaúche – termo francês que é chave na obra drummondiana e pode ser traduzido por esquerdo, torto, desajeitado, desajustado, anti-herói -, que dá o tom ao poema, sugerindo que os versos seriam o resultado de um poema “errado”, em desconcerto com o mundo.

Confessando-se poeta do tempo presente, Drummond dizia que mundo é isso que aí está: um beco sem saída. E se alguém disser que há uma saída, é melhor não acreditar nela. Então, o José do poema mais conhecido desse poeta mineiro, nada mais é que o cidadão comum (você, eu) que se vê às voltas com a referida ausência de saída para a condição humana.

Mário Quintana (19O6-1994)

• A Rua dos Cataventos (1940)
•        Sapato Florido (1947)
•        Espelho Mágico (1948)
•        Aprendiz de Feiticeiro (1950)
•        Antologia Poética (1966)
•        Caderno H (1973)
•        Pé de Pilão (1975)
•        Quintanares (1976)
•        Na Volta da Esquina (1979)
•        Nova Antologia Poética (1981)
•        Baú de Espanto (1986)

O gaúcho Quintana nunca fez poesia claramente social. Sua poesia é subjetiva, pessoal, cheia de cotidiano, de crianças, de surpresas. Quintana jamais se filiou a qualquer corrente literária, tanto que fez soneto, andou pelos caminhos da poesia simbolista, parou um tempo na poesia sintética contemporânea (haicai e epigrama) e prosificou versos. Seu principal tema foi o envelhecer, a transitoriedade inexorável do homem.

Cecília  Meireles  (19O1-1964)

•        Espectros (1919)
•        Viagem (1939)
•        Mar Absoluto (1945)
•        Romanceiro da Inconfidência (1953) – longo poema narrativo em que Cecília homenageia os inconfidentes e faz elogios à palavra e à liberdade.

Saudade, despedida, desencanto, fugacidade do tempo, viagem ao eu-interior, melancolia e desilusão são os temas frequentes da poeta Cecília Meireles. Como sofreu larga influência do Simbolismo, Cecília trabalhou com maestria a musicalidade dos seus versos, a ponto de chamar seus poemas de canções. A poeta participou do grupo católico que lançou a revista Festa. O poema seguinte, “Motivo” é representativo do universo temático de Cecília Meireles.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe E a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: Sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, Não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias No vento.
Se desmorono ou se edifico, Se permaneço ou me desfaço,
–  não sei, não sei. Não sei se ficou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo:
–  mais nada.

Jorge de Lima (1895-1953)

•        XIV Alexandrinos (1914)
•        Mundo do Menino Impossível (1925)
•        Tempo e Eternidade (1935), em colaboração como poeta Murilo Mendes
•        Calunga (1935) – romance
•        A Túnica Inconsútil (1938)
•        Invenção de Orfeu (1952)

Jorge de Lima teve uma fase poética de celebração à cultura negra. Em alguns poemas, inclusive, apropriou-se de um linguajar afro-brasileiro para conferir mais veracidade ao texto.

ESSA NEGRA FULO

Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangúê dum meu avô uma negra bonitinha chamada negra Fulo.
Essa negra Fulo!
Essa negra Fulo!
Ó Fulo! Ó Fulo!
(Era a fala da Sinhá)
– Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulo!
Essa negra Fulo!
Essa negrinha Fulo! ficou logo pra mucama, pra vigiar a Sinhá pra engomar pró Sinhô!