Neomodernismo – Poesia: Características e João Cabral de Melo Neto


Os poetas que se diziam neomodernistas divulgaram suas ideias sobre a nova poética que surgia em 1948 com a revista Orfeu. Nela, o poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos assinou um manifesto no qual o Modernismo anterior é acusado de ser “uma aventura sem disciplina”. De acordo com esse manifesto, a verdadeira poesia se obtém “na elevação do vulgar por meio do sentimento e da expressão bem elaborada”. Por isso, os poetas dessa fase propunham a volta do rigor formal da poesia do Parnasianismo (o poeta Ledo Ivo fez até uma visita bem noticiada ao túmulo do parnasiano-mor Olavo Bilac) misturando-o a influências do Simbolismo e enveredando pelos caminhos do Surrealismo. Ora, o fato de os poetas da Geração de 45 recusarem o poema-piada e o prosaico na poesia gerou algumas críticas irreverentes, como esta do intelectual e crítico de Literatura José Guilherme Merquior: “Os poetas de 45 eram comportados. Bons meninos, em nenhuma hipótese eram capazes de fazer pipi na cama da Literatura”.

Neomodernismo

Poetas mais representativos do neomodernismo:
•         Péricles Eugênio da Silva Ramos – LamentaçãoFloral;
•         Ledo Ivo – O Caminho sem Aventura, As Alianças;
• Geir Campos – Rosa dos Rumos, Canto Claro;
•         Mauro Mota – Canto ao Meio;
•         João Cabral de Melo Neto (o poeta mais brilhantedessa geração).

João Cabral de Melo Neto

Nasceu em Recife, em 1920, filho de tradicional família pernambucana. Estudou com os irmãos maristas e viveu sua infância nos engenhos. Em 1945, tornou-se diplomata e exerceu sua profissão principalmente em Portugal e na Espanha. Algumas obras:

•        Pedra do Sono (1942);
•        O Engenheiro (1945);
•        Psicologia da Composição (1947) – nesta obra incluem-se três composições: a que dá título ao livro, “Fábula de Anfion” e “Antiode”;
•        O Cão sem Plumas (1950);
Morte e Vida Severina (1956);
•        Duas Águas (1956);
•        Educação pela Pedra (1966);
•        Auto do Frade (1987).

Quando se lê qualquer poeta, observam-se na sua poesia influências e discurso de outros poetas. Fica, quase sempre, a impressão de que esse poeta é a continuação ou a ressurreição de outros, tais os pontos de contato nas suas poesias. Com João Cabral de Melo Neto isso não ocorre. Por quê? João Cabral é considerado um poeta original e único. Sua poesia tem uma personalidade própria, singular, que quase sempre versa sobre o próprio fazer poético (metalinguagem), embora o social tenha forte presença nela. Na sequência, são apresentados exemplos da singularidade e da personalidade de João Cabral.

Morte e Vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – o livro mais popular de João Cabral de Melo Neto – é uma peça teatral escrita em versos, na qual o poeta se mostra engajado, preocupado com a seca, com a miséria e com a injustiça social, que fazem do povo nordestino um verdadeiro morto-vivo. Na narrativa, Severino (metonímia dos nordestinos miseráveis) empreende uma viagem do sertão de Pernambuco até Recife, onde pensa encontrar o que não existia no sertão: vida. Entretanto, nessa viagem pelo leito seco do Rio Capibaribe, Severino só encontra a morte nas suas mais diversas formas produzidas pela miséria. No Recife, chega à miséria dos alagados e também só vê a morte. Por isso, decide morrer. A visão, porém, do nascimento de uma criança, parida de gente miserável como ele, faz com que conclua que, mesmo severina, a vida vale a pena. A peça teatral é, portanto, uma celebração à vida.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

– O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: por causa do coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo Senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino

•         busca do verso sintético, rápido, essencial;
•         a metalinguagem (fazer poético) como tema constante;
•         experiências inovadoras no trato com a linguagem por meio do Concretismo, da Poesia-práxise do Poema-processo;
•         a poesia participante de Ferreira Gullar e os versos musicais de Paulo Leminski;
•         inovações interessantes da poesia marginal (ou Literatura de mimeógrafo) feita por estudantes e, ainda, a poesia intrigante e rápida dos grafiteiros urbanos.

Poesia Concretismo

A poesia da Geração de 22 – Mário de Andrade, Manuel Bandeira – rompeu com o academismo, concretizou a liberdade temática, o verso livre e branco e enfatizou a temática da brasilidade. Ao passo que a poesia da Geração de 30 – Drummond, Cecília Meireles – herdou o verso livre e branco, revitalizou a linguagem mais formal e buscou uma temática universal.

A poesia da geração seguinte, denominada Geração de 45, retomou alguns elementos da formalidade parnasiana, recuperando o soneto. No entanto, entre esses poetas, houve aqueles que, segundo o respeitado crítico literário Alfredo Bosi, produzissem poemas com as seguintes características:

•         o subdesenvolvimento brasileiro influenciado pelos elementos da cultura estrangeira reinterpretado segundo a visão expressa por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago, como o Tropicalismo de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto, Tom Zé e outros músicos, poetas intelectuais;
•         testemunho crítico da realidade social, política e moral em poesia frequentemente feita por poetas-compositores, como Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes e outros;
•         rejeição ao verso tradicional, transformando o poema em um objeto de constante pesquisa e de propostas poéticas diferentes;

Esse poema materializa a concepção poética dos concretistas que, a partir da década de 1950, apregoavam que a poesia tradicional, baseada no verso, não combinava mais com as exigências do mundo moderno. A comunicação visual se integra à época do cinema, da televisão, da propaganda e da comunicação de massa.

No poema reproduzido, o ideograma, a repetição sonora, a aliteração e a assonância ocorrem por si mesmos, isto é, “o poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre”. “É o emprego do som, da letra, da página, da cor, da linha, enfim, do que existe de acústico e de visual na disposição dos vocábulos”.

O Movimento Concretista ganha expressão na década de 1950 em São Paulo, quando os professores e publicitários Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos divulgaram as ideias básicas do concretismo na revista Noigandres – expressão da Idade Média francesa de significado desconhecido – e na Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

No poema a seguir, desenhado em 1969, pelo poeta mineiro José de Arimathéa, fica clara a opção do autor pela vanguarda e pelo desejo de causar estranhamento no leitor, visto que utiliza os elementos gráficos de uma forma inesperada. O poema, nesse caso, é um objeto físico e a palavra (ou letra?) está diretamente relacionada ao espaço tipográfico. O importante, nesse caso, é o projeto e a sua visualização. A palavra pode ser dispensada.

O poema-processo foi uma proposta de poesia de Vanguarda liderada por Wlademir Dias Pinto em 1967. Ele propunha a eliminação da discursividade (poema em versos) e valorizava o aspecto visual dos signos.

Movimento artístico de cores fortes nos ritmos musicais e nas letras de canções das décadas de 1960 e de 1970. Trata-se da releitura das ideias do modernista Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago de 1928. O Tropicalismo mistura o nacional e o estrangeiro não no sentido de copiar fórmulas importadas, mas no de incorporar elementos estrangeiros aos nacionais, como na Antropofagia. Um exemplo é a canção “Tropicália”, de Caetano Veloso.

Um Pouco Acima do Chão (1949)
A Luta Corporal (1954)
Quem Matou Aparecida (1962)
Por Você, por Mim (1968)
Dentro da Noite Veloz (1975) – esse livro é uma homenagem a Che Guevara.
Poema Sujo (1976)
Na Vertigem do Dia (1980)
Na Vertigem do Dia (1987)
Crime na Flora (1986)
Barulhos (1987)
Formigueiro (1991)
Muitas Vozes (1999)