O que é, funções, texto e linguagem da Literatura


TEXTOS LITERÁRIOS E NÃO LITERÁRIOS

Mas o que distingue um texto literário de um não literário? A sua linguagem? A sua relação com a realidade? A sua forma? O seu conteúdo? A sua função? O papel reservado ao leitor?

De alguma forma, tudo isso pode nos oferecer indícios do que seja um texto literário. Pode nos munir de critérios que nos auxiliam a diferenciá-lo de um texto não literário. Enfim, pode nos ajudar a reconhecer sua especificidade.

linguagem da Literatura

FUNÇÕES DA LITERATURA

Qual é a finalidade de um texto instrucional? Imaginemos um manual de instruções de um liquidificador: pos­sui a finalidade de explicar ao interlocutor como se utiliza tal aparelho. E um texto informativo, como a notícia? Informar sobre um determinado fato.

E um texto literário, qual é sua finalidade? Obviamente, não tem uma natureza utilitária, ou seja, sua função não é especificamente informar, instruir, convencer… Não costumamos ler um texto literário por sua utilidade.

leitor e texto literário

No filme Sonhos (1990), o diretor japonês Akira Kurosawa levou às telas oito episódios que retratam, como sonhos, diferentes visões sobre a vida, constituindo-se em belos poemas visuais.

Num dos episódios, um jovem pintor, ao ob­servar telas de Van Gogh em um museu, entra nos quadros, em especial Campo de trigos com corvos, e se encontra com o pintor, vivido pelo cineasta norte-americano Martin Scorsese.

O jovem pintor corre ao encontro do mestre. Van Gogh explica que não pode parar para conversar, dizendo: “O sol me compele a pintar, me impulsiona como um trem”. Antes de partir, conta que cortou uma orelha, pois não conseguia retratá-la em seu último autorretrato.

É a revelação, não somente do mundo dos sonhos, que nos transporta a lugares inimagináveis, mas também do mundo das artes, na interação entre o público e a obra.

Cabe-nos um papel ativo como espectadores, leitores ou contempladores de obras de arte, dialogando, negociando e atri­buindo sentidos, recriando na imaginação a realidade sugerida… Enfim, essa interação consiste também em um ato criativo.

linguagem literária

Determinados gêneros de texto primam pela objetividade e pela clareza, procurando não deixar margem para múltiplas interpretações, pois, em certos casos, alguns danos podem ser provocados. Podemos •— citar, como exemplos, a receita culinária, a bula de remédio e o manual de instrução. O texto jorna­lístico em geral também procura apresentar uma linguagem clara, objetiva e impessoal, pois precisa cumprir sua finalidade de informar o interlocutor.

Outros géneros, ao contrário, se utilizam de linguagem figurada e de outros recursos expressivos, dando margem a múltiplas interpretações. É o caso das letras de música, dos anúncios publicitários e dos gêneros textuais da esfera literária, como o poema, o conto, o romance, entre outros.

TEXTOS EM VERSO E PROSA

Você acabou de ler, respectivamente, um texto em verso e um em prosa. O poema é um texto construído em versos, organizados em um ou mais agrupamentos separados por es­paço, chamados de estrofes. Já os textos dos gêneros narrativos, como, por exemplo, o conto e o romance, apresentam-se em forma de prosa, ou seja, num discurso contínuo, não fragmentado, em parágrafos.

Poema

Certamente, a disposição gráfica do poema é o aspecto que, logo à primeira vista, faz com que facilmente reconheçamos o seu gênero, mas não é, no entanto, a única característica que o diferencia dos outros gêneros textuais da esfera literária.

Originalmente, a poesia não era escrita. Existia apenas na oralidade – na fala ou no canto. Ao passar para a forma escrita, conservaram-se recursos que lhe conferem musicalidade. Desses recursos, podemos destacar prin­cipalmente a rima, a métrica e o ritmo, entre outros.

A rima é um recurso baseado na semelhança ou igualdade sonora das palavras no final ou mesmo no interior dos versos. Observe como se apresenta a rima no poema Soneto de fidelidade. Note que rimam os versos terminados com as palavras: “atento”, “pensamento”, “momento” e “contentamento”; “tanto”, “encanto”, “canto” e “pranto”; “procure” e “dure”; “vive” e “tive”; “ama” e “chama”. Ou seja, o poema apresenta o seguinte esquema rítmico: ABBA/ABBA/CDE/DEC.

A métrica é a medida do verso, isto é, a quantidade de sílabas poéticas que os versos apresentam. A sílaba poética, no entanto, difere da sílaba gramatical. Para obtermos o número de sílabas poéticas, contamos somente até a última sílaba forte de cada verso. Além disso, podem ser agrupadas numa única sílaba poética duas ou mais vogais.

Vejamos quantas sílabas poéticas apresentam estes versos do poema de Vinicius de Moraes:

Que / não / se / já i / mor / tal, / pôs / to / que é / chá / ma

Mas / que / se / já in / fi / ni / to en / quan / to / du / ré.

Se contarmos a quantidade de sílabas poéticas de todos os versos, chegamos à conclusão de que esse poema apresenta métrica regular: todos os seus versos são decassílabos, ou seja, possuem dez sílabas poéticas cada um.

E o ritmo? Pode ser obtido pelas rimas, pela métrica, pelo jogo de sílabas fortes e fracas dispostas nos versos criando uma sequência melódica, entre outros recursos.

Além desses, há outros aspectos relevantes sobre esse gênero.

Esse poema é uma composição de forma fixa: como anunciado no título, é um soneto, poema de quatorze versos dispostos em duas quadras – estrofes com quatro versos – e dois tercetos – estrofes com três versos.

Outro traço característico é o uso da linguagem figurada. Como vimos anteriormente, o texto literário, espe­cialmente o poema, se vale da plurissignificação da linguagem, suscitando múltiplas leituras.

Ainda, pode-se destacar a presença no poema de um “eu”, que não pode, no entanto, ser confundido com o autor.
Também chamado de “eu lírico” ou “eu poético”, esse “eu” é a voz que fala no poema, exprimindo emoções, ideias, impressões.