Olavo Bilac, João da Cruz e Souza e Lima Barreto: Considerações, Obras e Estilo


Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 1865 – 1918)

Foi aluno da Faculdade de Medicina da sua terra até o quarto ano, e depois começou a estudar Direito em São Paulo, sem matricular-se regularmente. Jornalista e funcionário público, aposentou-se como inspetor escolar. Ao ensino, dedicou atenção constante, – traduzindo e fazendo versos para a infância; escrevendo, só ou em colaboração, livros didáticos; organizando antologias. Além disso, fez propaganda da instrução primária, da cultura física e, mais tarde, do serviço

Olavo Bilac, João da Cruz e Souza

CONSIDERAÇÕES GERAIS

A apreciação da obra de Bilac tem conhecido juízos extremos, que oscilam da seca recusa à louvação irrestrita. Os detratores de sua poesia adjetivam-na como: “popularesca”, “demagógica”, “kitsch”, “superficial”, “linear”, “recorrente”, “acadêmica” etc. Já seus apologistas a têm como insuperável, perfeita, sublime, universal, sensível. Certo é que Bilac, reconhecido em vida como “Príncipe dos Poetas”, é o poeta mais antológico de nossa literatura, decisivamente identificado com o gosto poético nacional, com a nossa congênita tendência para o retórico retumbante, para o espetaculoso e para o brilhante; tendência que, em relação ao gosto do leitor médio, nem a demolidora pregação dos Modernistas de 1922 (Oswald, Mário, Bandeira) conseguiu abalar.

Sufocado pelo imenso prestígio dos parnasianos, o Simbolismo brasileiro foi um movimento quase clandestino. Iniciou-se, em 1893, com dois livros de Cruz e Sousa: Missal (poemas em prosa – uma novidade do Simbolismo e Broqueis (versos). Muitos foram os poetas que, através de todo o Brasil, participaram do movimento; entre eles, destaca-se um baiano, muito estranho e original, chamado Pedro Kilkerry. Mas a tradição crítica consagrou Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens como nossos maiores simbolistas.

João da CRUZ e SOUSA (Florianópolis, 1861 –  Estação do Sítio, MG, 1898)

Exploração de frases nominais (subst. + adj.) e colocação de substantivos e substantivações no plural, não precedidos de artigo. Exímio elaborador de sonetos, incorporando influência do perfeccionismo formal parnasiano. Preferência por uma sintaxe de justaposição, trabalhando com orações coordenadas; processo de parataxe. Exploração de recursos fônicos (como aliteração, harmonia imitativa, onomatopeia, assonância) e icônicos, como o anagrama, o fonotropismo: palavras que as sílabas de uma outra palavra emitem, insinuam e projetam. Recorrência obsessiva à cor branca, conotando feminilidade ou espiritualidade.

Em Tropos e Fantasias, livro de estreia que também continha textos de seu amigo Virgílio Várzea, Cruz e Sousa faz ainda uma poesia de ressonância romântica. A partir de Missal e Broquéis (1893) colocam-se as vertentes que formarão o eixo de sustentação de sua melhor poesia: senso dos contrastes e das correspondências, satanismo, tensão meditativa, sublimação, emparedamento e transcendentalização. Embora produzisse uma poesia de alta voltagem mística e filosófica, Cruz e Sousa também desenvolvia versos que resgastavam com firmeza os donos do poder.

Obras

•            Broquéis (1893)
•            Faróis (1900)
•            Últimos Sonetos (1905)
•            Tropos e FantasiasMissal (1893)
•            Evocações (1898)

Lima Barreto (Rio de Janeiro, RJ, 1881 – Rio de Janeiro, 1922)

Lima Barreto produziu romances, contos, cronicas, sátira política, crítica literária e um livro de memórias. Nem tudo o que escreveu foi publicado em vida, e boa parte dos escritos que ocupam os 17 volumes de sua obra completa teve. de ser catado pelos jornais e revistas em que colaborou.
Escritor apaixonado por temas ligados à sua própria vida, explora o preconceito contra os mestiços e pobres. Seus narradores mostram-se sempre indignados contra a insensibilidade dos ricos, a superficialidade dos burocratas, a corrupção dos políticos e a esterilidade dos falsos artistas.
Admirador de Marx e Dostoiévski, faz de sua literatura instrumento de combate. Critica a miséria das favelas e dos cortiços cariocas, denuncia o ufanismo oco e o temperamento politicamente morno de massa brasileira.

De nossos romancistas, Lima Barreto é um dos mais brasileiros. Existência atribulada e complexada por ser mulato, vivendo numa sociedade que, se não é ostensivamente racista, comporta-se de modo odiosamente classista, Lima Barreto reagia a este estado de coisas com o alcoolismo e um veemente protesto socialista. Sua formação intelectual resulta da leitura dos grandes realistas franceses e russos, bem como do impacto provocado pela Revolução de 1917.

Em 1918, tornou-se um militante maximalista (facção comunista que faz o máximo de reivindicações) , lançando um manifesto e numerosos artigos de ação socialista. Sua literatura tem o mérito de documentar o mundo da pequena burguesia e do proletariado suburbano carioca. Uma declaração dele: “Nasci sem dinheiro, mulato e livre. A minha esperança está no milhar 47875. Se ele não der, não sei como me salvo desta bodega.”
ROMANCES: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915); Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (1948). SÁTIRA: Os Bruzundangas (1922).

O ESTILO

Sua principal contribuição para a sensibilidade contemporânea foi o abandono do modo artificial e erudito de escrever que dominava nossas letras, em seu tempo. Sua obra vem sendo cada vez mais estimada não só pela informalidade estilística, bem como pela minuciosa representação crítica da sociedade do Rio de Janeiro da Primeira República.

Lima Barreto não faz de seu estilo um processo de “coelhonetização”: usa linguagem jornalística e até panfletária em seus livros, interessando-se mais pelos aspectos puros de conteúdo e de enunciação. Despreza o retoricismo, o helenismo e o beletrismo, balofos e inoportunos diante da realidade brasileira. Está muito mais empenhado em fixar a vida dos subúrbios cariocas do que os saraus.

A coletânea Melhores Contos é composta por quatorze histórias, onde o estilo inconfundível de Lima Barreto pontua a visão crítica de um Brasil não muito distante. Os temas dos contos migram e se comunicam na medida em que as histórias vão se desenvolvendo. É interessante observar a permanente propensão de denúncia e a crítica às injustiças sociais, bem como a sátira das mazelas políticas que assolavam o país. O olhar atento do autor focava os problemas de tal forma que aparecem constantemente nas obras a ironia e a análise do comportamento social. Verdade é que ao lado desse antenado crítico convivia às vezes, um indisfarçável panfletário, que por vezes atrapalhava o ficcionista.

“O observador via longe demais na sua crítica áspera e contundente aos políticos e aos donos da vida, de um modo geral, à mania de ostentação, ao vazio intelectual, à corrupção e à incompetência, própria da democracia relativa”, conforme atesta Francisco de Assis Barbosa. Os contos elencados na coletânea abordam, numa apreciação valiosa, os mais variados assuntos. Porém todos apresentam uma leitura crítica, sem rodeios, pois a preocupação maior é com a fidelidade das situações vividas pela espécie humana, expondo as fraquezas e alienações, valendo-se inclusive de traços caricaturescos para traçar tais perfis.