Poesia no Brasil: Gregório de Matos


Gregório de Matos inaugura a poesia no Brasil, e o faz em alto nível: cultor qualificado de uma arte de grande complexidade, realizou poemas marcantes seja na língua cultista seja na conceptista, chegando ao ponto de adaptar em português, com grande êxito, poemas do maior mestre da lírica barroca – o espanhol Gôngora, e do grande modelo barroco da sátira – Quevedo, também espanhol. Sua poesia não é, contudo, destituída de originalidade, pois – para além das convenções barrocas do lirismo e religiosidade, que cultivou – foi capaz de utilizar artisticamente a linguagem coloquial brasileira o seu “português mestiço “e de produzir um retrato satírico vivo e saboroso do Brasil no século XVII. Sua poesia licenciosa, que não evita os termos mais chulos e as cenas mais escabrosas, faz dele como que um herdeiro do espírito das cantigas de escárnio e maldizer.

Poesia no Brasil

CARACTERÍSTICAS

<=> A sátira de Gregório de Matos marca o início de uma linha de protesto e de consciência crítica na literatura brasileira: Gregório apresenta um tremendo diagnóstico dos males do Brasil acusando os portugueses, que exploravam barbaramente a colônia, mas sem poupar os brasileiros, satirizados impiedosamente pelo olhar metropolitano do poeta.

<=> índios, negros, mulatos e mestiços de todo tipo são alvos das violências do poeta (o qual, contudo, teve entre suas amantes várias negras e mulatas). Nota-se que o forte preconceito racial nem sempre priva a sátira de graça, nem impede que ela possa ter um alcance maior, que supere o simples preconceito.

<=> Os versos de Gregório captam, de forma brilhante, o quotidiano da vida colonial e a linguagem coloquial da época. Gregório não hesitou em incorporar tupinismos, africanismos, gíria baiana e termos chulos de toda sorte em sua poesia.

Nos poemas líricos de fundo existencial, Gregório explora os lugares comuns universais do Barroco (a brevidade da vida, a fragilidade da beleza) e chega a atingir, em alguns sonetos, um nível superior à (alta) média de qualidade da poesia de seu tempo. O mesmo se pode dizer de seus poemas de fundo religioso, com uma “malandragem” típica do poeta, que não hesita em tentar enganar Deus para salvar-se do inferno. Sua produção poética pode ser assim esquematizada:

Oh, não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Lírica Reflexiva (Filosófica)

Os poemas desse grupo apresentam nítida inclinação filosófica. São poemas graves, de cunho pessimista: Costumam desenvolver um raciocínio de lógica sinuosa, acerca de problemas existenciais, quase sempre chegando a conclusões desorientadas. Constrange o poeta a consciência da fugacidade do tempo e da brevidade da vida, considerada fonte de enganos.

Nesse contexto, a vida é sentida como um tortuoso labirinto, que se espelha na sintaxe contorcida. Os poemas reflexivos apresentam-se como um jogo de ideias engenhosamente desenvolvidas, o que é típico do estilo do conceptismo barroco. Aqui a influência maior é do espanhol Quevedo, o mais ilustre representante dessa corrente. Essas características todas afinam-se com o espírito pesado do século XVII, marcado pelos valores da Contra-Reforma.

A brevidade dos gostos da vida e a Inconstância dos bens do mundo Nasce o Sol; e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém, se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo, enfim, pela ignorância, E tem qualquer dos bens, por natureza, A firmeza somente na inconstância.

Fase Religiosa

Nos poemas deste grupo, a influência da Contra-Reforma é mais evidente. Sua presença opressiva manifesta-se sob a forma de uma ameaça perene de perdição, que paira sobre todos. O homem, encarcerado numa prisão de angústia, sofre por se saber irremediavelmente pecador. Perante a perspectiva da morte inexorável, teme os castigos reservados na vida além-túmulo. Sua única esperança é a misericórdia divina. Para alcançá-la, ele se humilha, reconhece a culpa e implora o perdão de Deus.

Essa poesia mística faz alarde da magnificência e do esplendor de Deus, contrapondo a esse quadro luminoso a precariedade sombria dos homens.
Perante a glória de Deus, o homem sente-se esmagado, mas ao mesmo tempo atraído. Esse fascínio, em certas ocasiões, expressa-se em imagens de cunho erótico, como forma de sugestão do êxtase místico. Essa característica da lírica sacra de Gregório de Matos tem semelhanças com a dos poetas místicos espanhóis San Juan de Ia Cruz e Santa Tereza de Ávila. Na poesia religiosa de Gregório de Matos, do ponto de vista estilístico, prevalecem os traços do conceptismo barroco. Combate ao Barroco, com seus exageros formais, cultistas  e  conceptistas,   sua   religiosidade “medievalizante” sua obscuridade.