Resumo sobre o conto A Caçada – de Lygia Fagundes Telles


Lygia Fagundes Telles é uma reconhecida e premiada escritora brasileira, ocupante da cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleita em 24 de outubro de 1985. Nascida em São Paulo, em 19 de abril de 1923, viveu a infância no interior daquele estado, filha da pianista Maria do Rosário e do promotor público Durval de Azevedo Fagundes.

Resumo sobre o conto A Caçada - de Lygia Fagundes Telles

Embora tenha começado seus esboços literários desde muito cedo, o grande marco de sua carreira é o romance Ciranda de Pedra, de 1954, que a alçou à condição de estrela da literatura brasileira. Desde então, acumulou obras premiadas, como Histórias do Desencontro (1958) – Prêmio do Instituto Nacional do Livro -; Verão do Aquário (1963) – Prêmio Jaboti -; Capitu (1967), roteiro de cinema – Prêmio Candango -; e uma sequência extensa de sucessos premiados, que culminaram no recebimento do Prêmio Camões, maior condecoração a ser cobiçada por um autor em língua portuguesa.

Em sua obra, voltada para a abordagem da difícil condição humana, misturou fantasia, realidade e imaginação, sem nunca deixar de compor seus quadros literários com um toque indelével de erudição e bom gosto.

A Caçada – Composição da atmosfera

A Caçada é parte da reunião de contos publicados sob o título “Antes do Baile Verde”. A coletânea de contos é de 1965 e cria uma atmosfera onde se misturam fantasia e realidade, mexendo com o imaginário do leitor, lembrando, de certo modo, mas em tiro curto, a linguagem adotada por Fiodor Dostoievski em Crime e Castigo.

A narrativa densa, intrínseca, psicológica, envolta em mistério e fantasia, fazendo o contraste com uma situação aparentemente banal, parece trazer um traço de influência do Realismo Fantástico de Borges e Garcia Marquez, tendência literária contemporânea ao lançamento de “Antes do Baile Verde”.

Em determinado trecho, o personagem central, presente a um antiquário, onde se desenvolve a narrativa, se divide entre o real e o imaginário, sendo que esse último ganha vida e, ao longo de toda a narrativa, ganha a condição de palco real da trama. O homem experimenta sensações, como o perfume dos eucaliptos e o frio da madrugada, que remontam a experiências de um passado imaginário, onde o caçador e sua barba encaracolada parece sorrir perversamente. Irônico constatar que a trama, na realidade, se passa no cenário imaginário, que nada mais é que uma projeção de uma tapeçaria velha, que forma conjunto harmônico com a banalidade e a desconfortável decadência do ambiente real e do segundo personagem, uma velha que limpa a unha do dedão da mão com um grampo que, em seguida retorna a cabeça, cujas reações parecem cooperar para a identificação do estado de alienação ou loucura do personagem principal, ainda que seus atos e palavras sejam indulgentes.

O desfecho da trama, que tem a imaginação, a lembrança ou um estado de transe do personagem central, é a substituição definitiva do cenário real, com toda sua banalidade, para o ambiente da ação, como se fosse o homem sugado pelo produto do enlace de seus pensamentos e do cenário fantástico, que se configura a partir da tapeçaria velha na parede.

A Caçada – Resumo do enredo

Um homem, que a autora não identifica pelo nome ou por características físicas, está em uma loja de antiguidades, que tem “cheiro de uma arca de sacristia com seus anos embolorados comidos de traça” e, na voz da senhora que o atende, se interessa por uma tapeçaria velha.

Não é a primeira visita e o homem, ao se aproximar de uma tapeçaria velha e precária pendurada na parede, que tem a imagem já meio carcomida de uma caçada, questiona estar o objeto de sua observação diferente, mais nítido, com as cores mais vivas. Na voz da velha, evidencia-se que nada aconteceu de novo, mas o homem insiste na diferença. A velha garante que a tapeçaria não aguenta sequer uma escova, supõe, de modo jocoso, que é sustentada pela poeira e desmontaria na ocorrência de qualquer tentativa de lhe conferir melhor aparência ou limpeza.

A tapeçaria foi comprada de um “moço”, que nunca mais voltou há anos. Uma afirmação banal à qual o homem reage com a expressão: “extraordinário”.

O homem é, então, tomado de uma lembrança apagada de algo que nunca existiu. Ou será que existiu e está ali naquela tapeçaria que descreve a cena de uma caçada, que une três personagens: dois caçadores, um deles com “barba violenta como um bolo de serpentes”, e a caça? Seria ele um dos personagens retratados na tapeçaria? Caçador ou caça?

A partir do dilema, a tapeçaria vai, ao longo da narrativa, ganhando vida, aroma e imagens fortes, que sugerem a fantasia se sobrepondo à realidade, talvez porque fosse ela mesma a realidade. Como desvendar o mistério?

Aos poucos a velha vai se configurando como único traço da realidade, mas mesmo esse traço desaparece no final da trama. A tapeçaria como que ganha vida, o personagem vive a caçada até suas últimas consequências, enquanto a loja de antiguidades se muda para um plano distante.