Romantismo – História, Características E Estilo Romântico


Os fragmentos a seguir mostram, genericamente, algumas características da literatura romântica no Brasil, no século XIX.

Castro Alves: José de Alencar, no primeiro texto, usa comparações e metáforas para descrever a índia Iracema, numa clara intenção de idealizar a figura feminina e valorizar elementos da nação brasileira. Casimiro de Abreu, no segundo texto, emprega elementos da natureza brasileira para revelar sua alma constantemente triste. Castro Alves, no terceiro texto, descreve o sofrimento dos escravos aprisionados no porão do navio negreiro; depois, faz uma apóstrofe indignada a Deus a fim de chamar-lhe a atenção para a situação daqueles negros.

Romantismo

História do Romantismo
Embora a idealização da figura feminina (texto I), a expressão de uma natureza pessoal doentia (texto II) e o inconformismo diante de uma situação social (texto III) tenham sido temas literários em todas as épocas, foi no Romantismo que ganharam cores fortes em razão de uma série de fatos históricos.

Na Europa, os acontecimentos políticos das três últimas décadas do século XVIII – principalmente a Revolução Francesa (1789), que deu origem à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” – geraram a consolidação da burguesia no poder e, consequentemente, o liberalismo, a valorização da iniciativa privada e a exaltação do valor e da competência do indivíduo, ou seja, do eu. Ora, o Romantismo nas artes foi o resultado desses acontecimentos, ou melhor, o retrato deles, tanto que o escritor romântico francês Victor Hugo, autor de Os Miseráveis e de O Corcunda de Notre-Dame, afirmava que o Romantismo era nada mais que o liberalismo nas artes.
No Brasil, o Romantismo coincidiu com a Independência, em 1822, e com o forte sentimento de ufanismo e de lusofobia do final do governo de Dom Pedro I e começo do império de Dom Pedro II. Nessa época, os escritores brasileiros que se inspiravam nos poetas e romancistas alemães, ingleses, franceses e portugueses, principalmente o poeta Gonçalves Dias e o romancista José de Alencar, tentaram criar uma literatura que tivesse, apesar da influência europeia, cunho nacional.
A história estabeleceu que nosso Romantismo foi iniciado pelo niteroiense Gonçalves de Magalhães, em 1836, com o livro Suspiros Poéticos e Saudades.
Características do Romantismo
Embora no Arcadismo (ou Neoclassicismo) tenha havido alguma manifestação romântica, ela se mostrou incipiente. Na verdade, todo o Romantismo é uma negação do racionalismo da arte greco-romana renascentista do século XVIII.
Individualismo – subjetivismo
A auto-realização do indivíduo é um pressuposto da ideologia burguesa (iniciativa, concorrência, expressão livre), e o Romantismo reflete isso: o particular, o singular, o pessoal, o individual, o subjetivo, a glorificação do eu.
Glorificação do eu
Em Lê Pére Goriot (1835), do francês Honoré de Balzac, o jovem Eugène Rastignac sobe no ponto mais alto de Paris e diz que vai conquistá-la, afirmando o valor do indivíduo e da sua capacidade de realização, mesmo que ele seja um rapaz pobre e sem origem. Essa manifestação de Rastignac é uma das partes do livro em que ele escancara sua individualidade e sua personalidade e demonstra que, para o romântico, não há pudor em se revelar ao leitor, que se transforma num confidente do personagem ou do eu-poético. Assim, o escritor romântico tornou-se um ídolo, portador de verdades que seus leitores seguiam – conta-se que, quando Victor Hugo morreu, as mulheres francesas lhe mandaram tantas rosas que as pétalas cobriam as ruas de Paris.
O eu sofrido
Em certo momento, a ideologia burguesa frustrou o romântico, que via na corrida em busca de dinheiro e do “possuir” incessante a derrota de seus sonhos de um mundo melhor. Então, ele se refugiou na constatação da inutilidade da sua existência e num pessimismo total. Na França, esse estado de espírito foi chamado de mal-do-século; na Inglaterra, de spleen (fel, amargura); e, no Brasil, de poesia de hospital. Os românticos constituíram a geração da boémia, das bebidas, do satanismo, da tuberculose.

Desencadeou uma onda de suicídios de jovens em toda a Europa, a ponto de alguns governos terem proibido sua circulação. Na verdade, ele era a história de milhares de jovens que viviam numa estrutura social e familiar que lhes proibia a realização do amor; afinal, quem decidia os casamentos eram as famílias.

Sentimentalismo exacerbado
O vocábulo romantismo remete a romance, que, por sua vez, remete à história de amor. O Romantismo é a manifestação de sentimentos, é o palco das emoções. Para o escritor romântico, o importante era o que ele sentia: alegria, tristeza, coragem, angústias, frustrações, sonhos, amor e paixão.
Observação
O alemão Johann Wolfgang von Goethe é o pai da valorização do sentimento, e isso está patente no livro O Sofrimento do Jovem Werther, publicado em 1774. Esse romance é constituído de cartas do jovem Werther a um amigo. Nelas, Werther revela-se um jovem loucamente apaixonado por Charlotte, bela moça que é namorada de outro homem. Observe a obsessão do jovem apaixonado: “Vou vê-la!, exclamo de manhã, quando desperto e, com a melhor das disposições, vou espiar o sol. Vou vê-la! E para o resto do dia não tenho outro desejo. Tudo, tudo se resume nesta perspectiva.” Werther, apesar de ter feito muitas tentativas para conquistar a amada, não conseguiu. O suicídio foi a única saída para o sentimento de amor não-realizado. Nessa obra, Goethe mostra que morrer por amor não é um gesto nobre, e sim divino. Esse livro de-

A morte de Werther, que comoveu a Europa, retratada por F. C. Baude.
Fuga da realidade
Como o cruel mundo burguês não servia para os românticos, eles fugiam dele para várias realidades virtuais.
•         Mundo da fantasia – o romântico devaneava e criava bonitos imaginários, constantemente cor-de-rosa;
•         Passado histórico – saudosismo: os escritores do Romantismo viviam do passado. Na Europa,a Idade Média tornou-se o paraíso perdido, por isso muitos poemas e romances têm conteúdos e enredos inspirados naquela época. No Brasil,onde não houve Idade Média, autores como José de Alencar e Gonçalves Dias se inspiraram em histórias e costumes indígenas dos séculos XVI e XVII, período de um possível paraíso perdido.
•         Passado individual – saudosismo: a infância e a adolescência eram épocas recorrentes para a fuga dos românticos; no Brasil, um dos escritores que usaram esse recurso foi o poeta carioca Casimiro de Abreu.
Natureza – o romântico se identificava com ela – seus estados de espírito sempre encontravam um par na natureza, como a tempestade, a flor levada pelo rio, a noite, a exuberância de cores, a calma do anoitecer e o alarido dos pássaros ao amanhecer. O colorido da natureza brasileira, por exemplo, é recorrente em quase todas as obras românticas.
•    Satanismo e mal-do-século – cultuar Satanás e todo o mistério que os elementos noturnos, lúgubres e macabros podiam significar tornou-se moda, era o carpe noctum. Para muitos românticos, os ideais cristãos, confiscados a serviço da burguesia, já não serviam, então Lúcifer foi a sã-
ida. Aliás, ao lado desse satanismo, houve a procura por uma vida boémia, desregrada, pândega, regada a conhaque, vodca e fumaça de charutos. A vida noturna seduzia os poetas, a ponto de muitos deles, em função de farras e bebedeiras, não resistirem a doenças venéreas e à tuberculose e morrerem jovens.
Nacionalismo e indianismo
A valorização da nação, ao lado do sentimentalismo exagerado, talvez seja a principal característica do Romantismo. Na Europa, criaram-se heróis que representassem as várias nações (El Cid, Viriato, Robin Hood, São Francisco de Assis, Guilherme Tell, Carlos Magno). O sentimento de amor à pátria era cultivado em todos os países; no Brasil, isso foi importante porque, após a Proclamação da Independência, em 1822, havia um país desenhado no mapa, mas era preciso gerar a ideia de nação. É aí que se situa a importância da obra poética de Gonçalves Dias e os romances de José de Alencar, que usaram o índio como símbolo da pátria brasileira e fizeram elogios múltiplos à natureza e à índole brasileiras.
Idealização e (ou) mitificação
Praticamente tudo no Romantismo é exagero. A dor que o eu-lírico sente, por exemplo, é a mais lancinante do mundo, haja vista a dor sentimental de Werther. Mas esse exagero, antes de tudo, foi uma convenção burguesa. Por exemplo:
•        a mulher – é rainha, anjo, deusa, casta, pura, virtuosa, virgem, donzela; nos romances românticos, as heroínas nunca traem;
•        o homem – forte, másculo, bonito, dominador, jamais fraqueja – é o herói;
•        casamento – o símbolo da felicidade;
•        pátria – lugar paradisíaco.

Estilo romântico
O Romantismo opôs-se ao Classicismo. As regras rígidas da literatura clássica começaram a ser quebradas pela inspiração do romântico. Rompeu-se a separação dos gêneros literários, misturaram-se o cômico e o trágico e o lírico e o épico; no teatro, criou-se o drama; a poesia passou a seguir regras individuais; abandonou-se a metrificação exata (há muitos poemas de versos livres); e surgiu a prosa poética (mistura de verso e prosa).
Os adjetivos tornaram-se os reis da frase e do verso: de acordo com os românticos, eles ampliavam o valor dos sentimentos, davam conotação mais elástica às emoções e intensificavam as paixões. No entanto, um resultado feio dessa adjetivação foi o surgimento de lugares-comuns como doce, cálido, bonito e celestial.
A comparação, a metáfora e a hipérbole foram as figuras preferidas pelos românticos. No Brasil, basta ler um parágrafo de Iracema para constatar que José de Alencar encharcou sua prosa de metáforas, aproximando a linguagem poética da prosificada. A hipérbole serviu para todo um arrebatamento emocional predominante.
Observação
Em Unhas gerais, essas são as características do Romantismo, que apresenta muitas contradições, as quais não são mencionadas aqui por questão de tempo e espaço. Todavia, prestando alguma atenção nas sinfonias apaixonadas de Beethoven (l 770-1827) e Tchaikovsky (1840-1893) e no colorido das pinturas de Delacroix (1798-1863), você vai constatar que todas as artes, em determinado momento, seguem praticamente as mesmas características.
Observação
O modelo físico da mulher romântica era o europeu: branca, pálida, transparente.