Concordância Nominal e Concordância Ideológica: Silepse de Número, Gênero e Pessoa


Sintaxe de Concordância

A concordância entre os termos da oração é uma das condições indispensáveis à clareza do texto. Veja. As lindas meninas atravessaram a praça tranquila. As lindas meninas atravessaram a praça tranquilas. As lindas meninas atravessaram as praças tranquilas. Observe que a terceira oração está ambígua, não se sabe se a palavra tranquilas se refere a praças ou a lin­das meninas. A concordância é um sistema gramatical que estrutura o mecanismo pelo qual os termos podem vir todos no plural ou no singular, no feminino ou no masculino, ou ainda na mesma pessoa gramatical. Há dois tipos de concordância:

Concordância Nominal

•         concordância nominal – os artigos, adjetivos, pronomes adjetivos e numerais sofrem flexão para se adequarem ao substantivo, ou ao prono­
me substantivo, a que se referem na frase;
•         concordância verbal – o verbo sofre flexão para adequar-se ao sujeito da frase.

Concordância nominal

Chama-se nominal o tipo de concordância pelo qual todas as palavras que se referem ao substantivo concor­dam com ele em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural). Aquelas duas revistas publicaram as trágicas notícias.

Casos especiais

Adjetivos e pronomes adjetivos -anexo, incluso, obrigado, mesmo e próprio. Devem concordar com o substantivo a que se refe­rem, pois são palavras adjetivas. O documento segue anexo. As faturas seguem anexas. As notas seguem inclusas Ele respondeu: muito obrigado. Ela respondeu: muito obrigada. Ele mesmo consertou o carro. Elas mesmas costuraram os vestidos de festa. Ela própria resolveu deixar o time. Eles próprios receberam o troféu.

Meio – bastante – menos

As palavras meio e bastante são adjetivas quando se referem a substantivos, por isso concordam com eles. Tomou meia garrafa de champagne depois de beber meia taça de vinho. Bastantes alunos fizeram o último vestibular. Quando funcionam como advérbios, meio e bastante ficam invariáveis: Minha mãe está meio cansada. As meninas falam bastante. Eram alunas bastante simpáticas. A palavra menos é sempre invariável: A prova de hoje tinha menos questões. Havia menos candidatos no vestibular do ano passado.

Caro – barato

Essas palavras funcionam ora como adjetivos, ora como advérbios. Vale a regra geral: quando se referem a substantivos, concordam com eles; quando são advérbios, permanecem invariáveis.

Como adjetivos: Poucas pessoas tinham o direito de reclamar. Os alunos apresentaram muitos motivos para o adia­mento da prova. Compraram roupas caras. Compraram roupas baratas. Andavam por longes caminhos.

Como advérbios: Os alunos estudaram pouco. Eram modelos muito bonitas. As roupas custaram caro. Pagaram barato aquelas roupas. Os funcionários moram longe.

É bom – é necessário – é proibido

Se o sujeito da oração formada pelo verbo ser + ad-jetivo não vier precedido de artigo (ou outro determi­nante), o verbo e o adjetivo ficam invariáveis. Sopa é bom no inverno. / É bom sopa no inverno. Entrada é proibido. / É proibido entrada. Chuva é necessário. / É necessário chuva.
Se o sujeito vier precedido por um artigo (ou outro determinante), a concordância será obrigatória. A sopa é boa. / É boa esta sopa. A entrada é proibida. / É proibida a entrada. A chuva é necessária / É necessária a chuva.

Um adjetivo referindo-se a mais de um substantivo

Quando o adjetivo aparece antes dos substantivos a que se refere, concorda com o mais próximo. Escolheu péssima argumentação e estilo para a redação. Escolheu péssimo estilo e argumentação para a redação. Se o adjetivo vier depois dos substantivos a que se refere, a concordância pode ser feita com o mais próxi­mo ou com os dois. No entanto, se houver ao menos um substantivo masculino, a concordância se fará no mas­culino plural.
Escolheu a argumentação e o estilo adequado para a redação. Escolheu a argumentação e o estilo adequados para a redação.

Concordância ideológica

Em certas situações, a concordância formal e lógica pode ser substituída pela concordância ideológica e psi­cológica. Em outras palavras: a concordância se faz não com o termo claramente expresso, mas com a ideia im­plícita nele. Essa concordância ideológica é chamada de silepse. Ocorrem silepses de número, de gênero e de pessoa.

•    Silepse de número – a concordância se faz com a ideia de plural que a palavra sugere e não com o termo expresso. O público chegou muito cedo e começaram a can­tar e a pular nas arquibancadas. Observe que o sujeito é o público, mas a concor­dância (começaram) foi feita com a ideia de plural (mui­tas, pessoas) que a palavra público sugere.
•    Silepse de gênero – ocorre quando a concordân­cia se faz não com o pronome expresso, mas com a pessoa a quem ele se refere. Vossa Excelência está preocupado? Alguém está com saudades e quer que você vá vê-la.
•    Silepse de pessoa – ocorre quando a pessoa que escreve ou fala se inclui no sujeito. Todos os brasileiros decentes queremos punição para os políticos corruptos.