Figuras de Palavras: Metonímia, Sinédoque e Sinestesia


Metonímia

Não é realmente simples intuir a distinção entre me­táfora e metonímia, mas esse deve ser o nosso desafio. Enquanto o processo da metáfora é uma substituição ba­seada numa relação de semelhança, o da metonímia é uma substituição baseada numa relação de contiguida­de. Vamos trabalhar essa ideia.
Duas coisas são contíguas quando possuem alguma proximidade no tempo ou no espaço. Por exemplo, se en­chemos uma taça com vinho, há uma relação de contigui­dade entre a taça e o vinho, pois os dois estão espacialmente próximos. Se um caçador atira em um animal e o mata, há uma contiguidade entre o tiro e a morte do ani­mal, pois são eventos temporalmente próximos.

Figuras de Palavras

O anúncio da Disney Ex­plora joga com o vocá­bulo m o use (camundon­go em inglês), que, na moderna linguagem de informática, designa um dos componentes do computador pessoal, responsável pela inter­face entre o usuário e a máquina. Há também uma alusão ao persona­gem Mickey Mouse, da Disney. A associação do personagem com o com­putador (necessária pa­ra divulgar a propagan­da do site na Internet) se dá por meio de meto­nímia, associação por contiguidade semântica.

Termos em sentido conotativo com base em um processo de metonímia. Vejamos.
(1)        Naquela memorável festa, bebemos juntos várias ta­ças de vinho.
(2)        Sem nenhuma hesitação, o caçador lançou a morte sobre sua presa.

Na frase (1), a expressão “taças de vinho”\o\ empre­gada em sentido figurado. Ao pé da letra ela é absurda. Certamente as pessoas não beberam “taças de vinho”, mas o vinho contido nas taças. Na frase (2), o caçador não lançou “a morte”, conceito abstraio, mas uma flecha ou uma bala.
Nos dois casos, houve a substituição de um termo por outro, mas em nenhum deles a razão dessa substitui­ção foi a existência de semelhanças entre os dois ter­mos. A taça não se parece com o vinho, a morte não se parece com a bala ou a flecha. Em ambos os casos o que possibilitou a substituição foi uma relação de contiguida­de entre os dois termos. Houve, portanto, metonímia.

Para discernir metáfora e metonímia, devemos sem­pre pensar se o termo presente na frase é semelhante ou contíguo ao termo que ele substitui. Como dissemos, nem sempre isso é fácil, mas será sempre esse o méto­do. Para fins didáticos – e dada certa dificuldade do assun­to – convém listar os tipos mais comuns de metonímia.
1.     Substituição do conteúdo pelo continente, como em beber taças de vinho.
2.     Substituição do nome da obra pelo nome do autor, como em ler Machado de Assis.
3.     Substituição do nome do produto pelo nome da mar­ca do produto, como em beber uma Brahma (inclusi­ve, nem sempre a cerveja é realmente dessa marca) ou comprar uma Gillette.
4.     Substituição da causa pelo efeito, como em lançara morte sobre o animal.
5.     Substituição do concreto pelo abstrato ou vice-versa, como em ele tem grande coração (tem grande bon­ dade) ou ela o afagava com sua mocidade (seus bra­ços de mulher jovem).

Sinédoque

Se não é fácil distinguir metáfora de metonímia, tam­bém não é simples distinguir metonímia de sinédoque. Para muitos autores, inclusive, trata-se da mesma figura. Para nós, entretanto, essa distinção é necessária, por­que muitas vezes as questões de vestibular falam de sinédoques como processos distintos da metonímia.

Como vimos, a metonímia é uma substituição basea­da numa relação de contiguidade entre dois termos. Já a sinédoque é uma figura de inclusão, em que ocorre substituição da parte pelo todo, ou vice-versa. Vamos analisar um tipo de frase bastante comum. (3) José Maia é um homem extremamente rico. Só em uma de suas fazendas, possui mais de 50 mil cabe­ças de gado. Sem dúvida, José Maia é dono de 50 mil bois inteiros. Na frase, o termo bois foi substituído por “cabeças de gado”.

Não existe uma metáfora. Não há semelhança entre o boi e sua cabeça. Pensamos então que pode haver metonímia. Mas, ao analisarmos o exemplo com aten­ção, percebemos que o motivo da substituição não foi exatamente uma relação de contiguidade entre o boi e sua cabeça. Vimos que duas coisas são contíguas quan­do estão próximas. Ora, a cabeça do boi não está próxi­ma ao boi, mas está incluída dentro do corpo do boi. Essa relação de inclusão aponta, então, para uma siné­doque, mais do que para uma metonímia.

Mas atenção! Você pode encontrar exames vestibu­lares que tratem a sinédoque como um tipo de metoní­mia e outros que a tratem como um processo distinto. Numa questão escrita, as duas respostas seriam igual­mente consideradas corretas. Num teste, raramente aparecem as duas alternativas. É preciso certo tato para lidar com o problema! De qualquer modo, a distinção en­tre as duas figuras é feita, nestes termos: a metonímia é uma substituição por contiguidade, e a sinédoque é uma figura de inclusão.

Sinestesia

Outra figura de palavra é a sinestesia. Consiste em qualificar um traço por meio de um sentido diverso da­quele em que o traço é percebido. Por exemplo, a luz do sol pode ser percebida pela visão ou pelo tato; a sensa­ção de doçura, por sua vez, está associada ao paladar; ambos os traços, no entanto, cruzam-se nesta frase de Érico Veríssimo, da obra Um certo capitão Rodrigo: (4) A luz do sol tinha a doçura do mel.