Colocação das palavras na Língua Portuguesa


Toda textualidade tem como princípio a coerência e a coesão. Não importa de que forma nos comunicamos, queremos ser compreendidos na totalidade da mensagem que está sendo transmitida. No caso da Língua Portuguesa, há muitas formas de fazer isso.

Colocação das palavras na Língua Portuguesa

Uma das características do nosso idioma é o fato de que podemos modificar o local das palavras em uma oração sem que isso, necessariamente, afete a clareza do discurso. Na verdade, a alteração é uma técnica que preza pela ênfase de uma ou outra ideia dentro da mensagem, enquanto o nexo semântico e o nexo sintático seguem preservados. É muito utilizado no dia a dia, sem mesmo que a maioria das pessoas perceba.

No geral, as frases são formadas pela ordem SUJEITO mais PREDICADO mais COMPLEMENTO DO VERBO mais ADJUNTO ADVERBIAL. Ou seja, teríamos, por exemplo, a oração:

A garota comeu uma maçã lentamente.

Se nós invertemos algumas das palavras, dependendo da forma como faremos isso, ainda é possível manter o mesmo significado, enquanto damos destaque maior para determinada parte da ação:

Lentamente, a garota comeu uma maçã.

Ou, ainda:

A garota, lentamente, comeu uma maçã.

Como podemos trocar a ordem sem afetar o significado

A Língua Portuguesa oferece possibilidades, mas também precisa de regras para regê-las. Mas quando falamos da colocação das palavras, não se trata exatamente de regras como as que vimos na ortografia – é uma questão de análise e contextualização mais do que qualquer coisa.

Antes de mudar a ordem em uma frase, é preciso conferir se ela permanecerá dentro desses três fatores principais:

– Clareza de significado
Muitas vezes, as mesmas palavras podem dar um ar de duplo sentido quando mudam de ordem. Isso compromete a clareza de significado, pois a mensagem fica completamente comprometida. Por exemplo:

Ela pegou o ônibus correndo

Quem estava correndo? Não há como saber, com certeza, o que exige uma alteração. A mudança pode ser:

Correndo, ela pegou o ônibus

Mesmo sendo simples, é uma mudança suficiente para que o ouvinte ou leitor entenda realmente a quem se refere o adjunto adverbial. Isso também se aplica a adjetivos, ou qualquer outra palavra. Se você quer dizer que uma pessoa é grande, por exemplo, é preciso deixar claro se você está se referindo à estatura física ou a uma impressão subjetiva que tem mais a ver com o caráter e personalidade da pessoa. Tatiana é uma grande mulher =/= Tatiana é uma mulher grande.

Mais um exemplo que vale a pena ser citado é as variações de algum/alguma. A alteração na ordem dessa palavra costuma mudar todo o significado da oração. Veja:

Ele entendeu alguma parte da aula
Ele entendeu parte alguma da aula

Houve, na primeira frase, um entendimento positivo da mensagem – mas, na segunda, o entendimento foi negativo.

– Harmonia
Quando escrevemos, é comum nos esquecermos de como determinadas palavras podem soar ao serem oralizadas. Entretanto, é importante dar atenção a esse fator, tanto no texto escrito quanto no oral. A harmonia faz parte da construção de significado, tanto por deixar a oração agradável quanto para evitar o cacófato. Por exemplo:

Estava com uma mão na cintura

Quem ouve, percebe o “mamão” sendo falado sem querer. Outra opção é colocar apenas um adendo:

Estava com uma das mãos na cintura

O problema da falta de harmonia é especialmente frequente quando se trata de ênclises, ou seja, quando o pronome é colocado depois do verbo. Exemplo:

Aborreci-te hoje?

O “ci-te” se torna desagradável foneticamente. O melhor seria alternar para:

Te aborreci hoje?

– Expressividade
A principal razão para a mudança (ou não) na colocação das palavras é a expressividade. Geralmente, ela ocorre porque o emissor quer tornar alguma parte do discurso mais enfática. Na maioria das vezes, essa ênfase é expressa na relação entre o substantivo e o adjetivo que lhe é conferido. A distinção pode até ser sutil, mas é percebida por todos, mesmo que o receptor não saiba dizer, exatamente, porque ele percebe a diferença.

Por exemplo:
Ela estava sorrindo por conta de uma coincidência feliz
Ela estava sorrindo por conta de uma feliz coincidência

Fique atento!

Como mencionamos, as regras que regem a colocação de palavras na Língua Portuguesa não são tão claras, bem como muitas outras normas, pois dependem de uma variedade de palavras e dos objetivos do emissor da mensagem.

A responsabilidade do emissor é, portanto, ter habilidade o bastante para reconhecer quando a clareza de significado, a harmonia ou a expressividade estiverem comprometidas. Nem sempre essa identificação será simples, e não é incomum que ocorram erros. Tendo isso em mente, não é exagerado assumir que a clareza de significado é o ponto mais importante, para o qual deve existir atenção especial entre todos os falantes da língua. Ainda assim, sempre que possível, é válido a concentração nos outros fatores, para uma comunicação aprimorada e realmente eficaz.