O uso de estrangeirismos – Uma forte influência entre os falantes


Os questionamentos em torno da evolução da língua são uma temática constante, pois a linguística é considerada um elemento vivo, que se adapta às necessidades de comunicação do interlocutor, e justamente por isso se encontra em constante evolução.
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Dentro da linguística, são diversas as disciplinas que se dedicam à análise desta evolução, seja a partir de uma perspectiva sincrônica (olhando para o presente, para o estado atual da língua) ou seja de um ponto de vista assincrônico (olhando para outro estado da língua que não no estado atual, situada em algum lugar na linha do tempo passado). E quando falamos em evolução da língua, do português ou de qualquer outra língua do mundo, um dos assuntos de maior interesse são os estrangeirismos.

Estrangeirismo é o nome dado às palavras e expressões que são emprestadas de outras línguas e começam a fazer parte do vocabulário de um campo especifico, como por exemplo o discurso científico ou o discurso empresarial, ou mesmo por todos os falantes.

Isso se deve a inúmeros fatos. O primeiro deles é a facilidade de emprestar palavras para designar determinado objeto do mundo em comparação com o esforço de criar outras. O segundo motivo é a globalização, e mais recentemente a explosão da tecnologia digital, que está permeada na vida de todos nós. O terceiro motivo é a força e prestígio que determinadas culturas têm, como a que a francesa teve até o século XIX, e como a americana, maior força cultural atual, dentre diversos outros.

Convenção da grafia dos estrangeirismos1

A grafia de uma palavra estrangeira quando inserida em determinada língua é convencionada por uma série de fatores. Por exemplo, temos a força que a palavra ou expressão original tem em determinado campo. Em artigos acadêmicos em português, é muito comum lermos palavras como sine qua non, uma expressão de origem francesa. Sua grafia é feita da forma original, pois isso demonstra prestígio e conhecimento por parte do(a) autor(a).

Outro fator que condiciona a grafia é o uso. Com o passar do tempo, conforme uma grafia, mesmo que errada, se estabelece entre a maioria dos falantes, a tendência é que ela seja adotada como a grafia oficial. Bons exemplos disso são o uso de estrangeiros como batom (do francês bâton), e bangalô (do inglês banglow).

Assim, temos duas possibilidades em termos de grafia e fonética dos estrangeirismos. A primeira é que a palavra mantenha sua grafia original, ou seja, não ocorre nenhum fenômeno de aportuguesamento, e a segunda é quando a grafia original da palavra é modificada para se tornar mais próxima da maneira como é pronunciada. Assim, no último caso ocorre o fenômeno de aportuguesamento.

Para que possamos ter ideia das tensões culturais por trás da adoção e uso dos estrangeirismos no português brasileiro, uma boa saída e recorrer a análise feita pelo TermoNeo, conduzida pela professora Maria Ieda Neves da USP. Segundo a análise de seu corpus (conjunto de textos selecionados para que softwares de analise textual possam rastrear aquilo que o usuário deseja), os estrangeirismos se dividem da seguinte maneira em português brasileiro:

-78% provenientes do inglês;
-6% provenientes do francês;
-3% do japonês;
-3% do italiano;
-2% do espanhol;
-8% de outras línguas.

Diante disso a primeira coisa que nos chama a atenção é a grande quantidade de estrangeirismos provenientes do inglês e do francês, fato que se justifica por tais países serem potências, já que não possuem quantidade significativa de imigrantes no Brasil. Em relação às demais línguas podemos deduzir que estão presente nos resultados da análise, pois se tratam de línguas nativas de diversos imigrantes do Brasil.

Classes de palavras dos estrangeirismos2

Algo bastante interessante de ser analisado quando estamos falando de estrangeirismos são as classes de palavras e funções sintáticas que os mesmos desempenham no esquema da língua. Assim, se analisarmos uma longa lista de palavras estrangeiras utilizadas em português brasileiro, a primeira coisa que iremos perceber e que a grande maioria são substantivos.

Isto se deve, em grande parte, tanto pelo propósito do empréstimo, quanto ao fato da economia linguística (comunicar com o menor esforço possível) e pela complexa gramática brasileira. Assim, em relação a este último fator, dificilmente um estrangeirismo terá a função de verbo dentro da língua, pois isso implicaria em ser capaz de flexionar em gênero, pessoa, número e modo, o que implica em diversas consequências de natureza ortográfica.

Assim, diante de tudo o que foi colocado acima, podemos concluir que os estrangeirismos são parte natural e integrante do português e da grande maioria das línguas do mundo, pois ele está diretamente relacionado a questões culturais, econômicas, políticas e linguísticas, presentes na vida de todos nós.

Mais que isso, eles desempenham um papel bastante importante na língua, e refletir sobre os mecanismos gramaticais utilizados em textos com a presença deste tipo de palavra é uma tarefa bastante pertinente para a gramática brasileira, em especial a gramática da língua falada.