Polissíndeto


A língua portuguesa dispõe de vários recursos estilísticos que conferem maior expressividade, emoção, intensidade, beleza e ritmo à fala ou à escrita de um texto literário, um discurso, uma letra de música. São as figuras de linguagem, também conhecidas como figuras de estilo. As figuras de linguagem são classificadas em figuras de palavras, figuras de construção ou sintaxe e figuras de pensamento.

Polissíndeto

Conhecer e compreender as figuras de linguagem é importante para escrever textos com mais criatividade, ritmo, intensidade e até mesmo para quebrar a leitura passiva, automática. Com as figuras de linguagem o conjunto de palavras que compõem cada frase de texto ganham uma dinâmica diferenciada à leitura. É o que acontece quando se recorre a uma figura de linguagem chamada polissíndeto, que será explicada mais adiante.

Aplicação de figuras de linguagem

Utilizando as figuras de palavras – metáfora, metonímia, comparação, perífrase e sinestesia – é possível fazer analogias como nos seguintes exemplos:

  • Metáfora: A desilusão e a derrota são amargas.
  • Comparação: Miguel é como uma folha ao vento. Não tem ideais.
  • Metonímia: Maria trabalhava 15 horas por dia para alimentar dez bocas.
  • Perífrase: A Cidade Maravilhosa está pronta para o carnaval.
  • Sinestesia: Ana tinha uma voz doce e aveludada.

O uso de figuras de pensamento – antítese, apóstrofe, eufemismo, gradação, hipérbole, ironia, paradoxo, personificação, reticência e retificação – ocorre quando o autor tem a intenção de transferir ao texto literário sentimentos, emoções, contrastes intensidade, dúvidas.

  • Antítese: As sempre-vivas morreram.
  • Apóstrofe: Ó Deus! Por que não ajuda?
  • Eufemismo: João passou desta para melhor.
  • Gradação: Um olhar, uma palavra, um gesto era suficiente para me cativar.
  • Hipérbole: Ao cair da bicicleta, Caio chorou rios de lágrimas.
  • Ironia: Brasileiros sofrem com o aumento da criminalidade, mas o país está sob controle.
  • Paradoxo: Com valentia covarde, João roubou o celular do cadeirante.
  • Personificação: O sol matinal acaricia a pele dos pescadores.
  • Reticência: Quem sabe se você viajasse …
  • Retificação: O pai, aliás padrasto da criança, compareceu à reunião.

As figuras de construção ou figuras de sintaxe são utilizadas quando o autor deseja escrever frases mais concisas, dar maior expressividade e beleza ao texto. As mais importantes figuras de construção são: elipse, pleonasmo, anacoluto, inversão, onomatopeia, repetição e polissíndeto.

  • Elipse: O aluno estava insatisfeito como o professor, aliás, todos os seus colegas.
  • Pleonasmo: Carlos viu com seus próprios olhos o acidente.
  • Anacoluto: Esses políticos de hoje não se pode acreditar neles.
  • Inversão: Flores, desisti de comprar.
  • Onomatopeia: Vozes velozes, velozes vozes.
  • Repetição: O céu foi fechando, fechando, até que caiu uma forte tempestade.

Polissíndeto em orações coordenadas sindéticas

A oração coordenada conecta-se a outra de igual natureza sintática. No período composto, formado por coordenação, as orações coordenadas são independentes.

Coordenada sindética: ligadas por conjunções coordenativas aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas e explicativas.
Coordenada assindética: não estão ligadas por conectivos.

Normalmente, a sequência de termos coordenados possui um conectivo aditivo antes da última palavra como no seguinte exemplo: Ana Paula comprou uma blusa, uma calça, uma bolsa e um chapéu. O conectivo aditivo “e” é inserido antes do último elemento da lista.

Porém, quando o autor faz uso de figuras de linguagem como o polissíndeto ou assíndeto, os termos podem ser sequenciados com o uso de conectivo aditivo para elencar cada um deles (polissíndeto) ou omitidos (assíndetos).

A frase citada anteriormente, com o uso de polissíndeto, ficaria assim: Ana Paula comprou uma blusa, e uma calça, e uma bolsa e um chapéu.

A palavra polissíndeto tem origem grega: polysýndeton. O vocábulo polýs significa “muitos”. O verbo syndéo significa “ligar, unir”. Sendo assim, a palavra polissíndeto pode ser compreendida como “muitas ligações”. A ligação é feita com o uso de conjunções. O polissíndeto corresponde, portanto, à repetição da mesma conjunção em uma oração.

Em orações coordenadas sindéticas, os elementos mais utilizados para formar o polissíndeto são: e, ou, nem. Ao construir orações com polissíndeto o autor consegue criar ritmo, aumentando ou diminuindo a velocidade da leitura, transmitindo continuidade, sucessão de ideias.

Quando o autor deseja enfatizar cada elemento da sequência, mais do que a ideia geral da frase, utiliza o polissíndeto. O leitor, ao se deparar com a conjunção, que se repete a cada termo elencado, fará uma leitura mais pausada, prestando atenção a cada palavra.
Vejamos alguns exemplos de polissíndetos:

  • “Por que é a beleza vaga e tênue, falaz e vã e incauta e inquieta?” (Cabral do Nascimento).
  • “Vão chegando as burguesinhas pobres, e as criadas das burguesinhas ricas, e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza”. (Manuel Bandeira)
  • “E treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta”. (Olavo Bilac)
  • Pedro não quer estudar, nem trabalhar, nem conquistar a independência financeira.
  • Difícil entender Maria das Dores. Ou sorri, ou se entristece, ou cala, ou grita, ou concorda, ou reclama, tudo isso de uma hora para outra.
  • Joana sonhava em viver com liberdade, e se divertir, e passear, e viajar pelo mundo, e fazer tudo o que sentir vontade.

E o assíndeto?

O assíndeto caracteriza-se pela omissão do conectivo na sequência de termos de uma oração. Os efeitos dessa figura de linguagem são o nivelamento (nenhum termo é mais importante que o outro), rapidez e brevidade. Veja alguns exemplos:

  • Juliana veio à escola, falou com a diretora, partiu.
  • Entrou na loja viu, gostou, pediu, pagou, foi embora.

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