Um estudo sobre a hipálage


Nesse texto apresentamos um estudo sobre hipálage, que, segundo a definição dos dicionários, é um expediente retórico em que uma palavra ocupa o lugar de outra. Em uma frase, a lógica determina onde um termo deve estar, e esse conceito faz com que haja uma troca, criando um vínculo semântico e gramatical diferente. A hipálage pertence ao conjunto das figuras de linguagem. Para entendermos melhor o seu funcionamento, vamos lembrar de alguns conceitos fundamentais:

Um estudo sobre a hipálage

  • Denotação: quando você trabalha com a palavra no sentido literal, que pode ser encontrado no dicionário.
  • Conotação: quando você trabalha com a palavra no sentido figurado, que, pelo contexto, ganha um sentido novo.

A figura de linguagem está relacionada a uma definição conotativa. Como o termo já indica, as palavras não possuem o significado que parecem num primeiro sentido. Observemos um simples exemplo:

  • Maria é linda. (Sentido denotativo)
  • Maria é linda como uma rosa. (Sentido conotativo)

A frase ganha força de expressão por trazer uma comparação a algo belo. Por isso, cria-se um sentido mais profundo, adequado a textos literários. Agora vamos tratar especificamente da hipálage.

Estudo sobre hipálage

Essa figura de linguagem está entre aquelas que os estudantes costumam ter mais dificuldades em memorizar. Embora o conceito não seja difícil, é pouco familiar e não é enfatizado pelos professores como deveria.

Uma hipálage, em termos simples, é um recurso linguístico em que uma palavra é trocada por outra. Assim como outras figuras de linguagem, ela é empregada principalmente para dar mais expressividade a um texto ou discurso.

Segundo Massaud Moisés, no seu Dicionário de Termos Literários, a hipálage é um expediente retórico em que um determinante não está localizado junto ao determinado (o substantivo, no caso) que, pela lógica, deveria estar. Esse determinante, no caso, pode ser um adjetivo, artigo ou complemento nominal.

Vamos ver um exemplo para ficar mais claro. Observe a frase:

• Ganhei um bonito sapato no meu aniversário, mas ele não entra no meu pé.

A frase aparentemente é normal, visto que falamos dessa maneira muitas vezes no dia a dia. No entanto, o verbo “entrar” está descabido na frase. Não é o sapato que entra no pé, mas o pé que entra no sapato. Ou seja, foi usada uma palavra ao invés de outra, caracterizando uma hipálage.

No hino nacional brasileiro, escrito por Osório Duque Estrada, há um bom exemplo de hipálage:

• “Ao som do mar e à luz do céu profundo”

É o mar que possui a característica da profundidade, e não o céu. Isso porque a profundidade diz respeito a uma verticalidade que acontece no sentido inferior, ou seja, de cima a baixo, e não ao contrário. O adjetivo acabou determinando outro substantivo, não o que logicamente deveria.

O conceito de hipálage é muito próximo da figura de linguagem sinestesia, e por isso muitas vezes gera uma confusão. Mas nesse, há uma correspondência de diferentes sensações físicas, por exemplo:

• Eu senti o azul do mar gelar meus ossos.

A frase inicia falando que o narrador teve uma sensação tátil (“eu senti”), mas através de uma informação visual (“azul”). Como, na realidade, vemos o azul, há a mistura de dois órgãos do sentido na frase (tato e visão), o que caracteriza a sinestesia. Assim como acontece com a hipálage, há um processo psíquico que faz a união de dois elementos diferentes. Isso gera uma forte expressão na frase, sendo, portanto, um interessante recurso linguístico.

Ao atribuirmos a um substantivo a qualidade de outro, temos uma formação diferenciada, que está ligada a semântica. Isso porque, ao trocarmos as palavras, trabalhamos o sentido mais profundo das relações entre elas, que não são mencionadas na frase. No entanto, dentro de uma construção linguística dessas também há uma proximidade da relação sintática, porque a construção utiliza-se da proximidade do contexto da oração.

Hipálage na literatura

Em Os Lusíadas, X, 2, Camões descreve “abundantes mesas de altos manjares”. Isso é um emprego rico de hipálage, já que ele usa uma retórica poética para falar de abundantes manjares de altas mesas. Outro poeta de língua portuguesa a utilizar o recurso foi o brasileiro Augusto dos Anjos, no poema Cismas do destino, parte II. Ele fala de um “apetite necrófago da mosca”. Evidentemente, quem tem a necrofagia é a mosca e não o apetite.

Devido ao caráter dos sentidos, a hipálage é muito comum na prosa impressionista, surgida no final do século XIX. Esse estilo literário foi muito influenciado pela pintura que surgiu na França na época. Flaubert foi um grande representante do gênero, tendo influenciado muitos outros escritores. Um deles foi Eça de Queirós, considerado o maior romancista de Portugal. Ele escreveu em Os Maias, por exemplo, “Uma alvura de saia moveu-se no escuro”. O sentido denotativo seria: “Uma pessoa com saia branca moveu-se no escuro”.

Além disso, o prosador português usava muita hipálage nas suas adjetivações, como “peixe austero”, “multidões doentias dos pinheiros”, “como nevoeiros moles”, “choupos desfalecidos” e “neve silenciosa”.