Destruturação social


A sociedade humana é um fenômeno em constante mutação. A evolução tecnológica, as mudanças nas relações de trabalho, os valores, influências e a elevação considerável da expectativa média de vida nas últimas décadas são fatores que, sem dúvida alguma, interferem e desafiam a estrutura social.
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A malha estrutural da sociedade não é combinação de uma engrenagem imutável com bases permanentes. Ao contrário, é difícil imaginar que a mudança da economia feudal, na Idade Média, para a atual economia capitalista e digital, no século XXI, não obrigasse a sociedade humana a séculos de readaptações, reacomodação geográfica e de valores.

Sem dúvida alguma, em qualquer tempo, a manutenção de uma boa estrutura social está relacionada a quatro elementos: família, escola, religião e política. A harmonia entre essas variáveis, no sentido de criar uma rede social favorável à convivência e ao crescimento, é o caminho para uma sociedade bem estruturada.

O que seria uma sociedade bem estruturada?

A ideia de sociedade bem estruturada é bastante difusa, cabendo a ocorrência de visões particulares. Haverá quem afirme, numa abordagem mais conservadora, que a estruturação da sociedade se dá a partir da família e da religião. Haverá, por outro lado, quem afirme que uma sociedade se estrutura a partir da educação e das políticas de estado.

Para saber quem está certo ou se há um meio termo, uma abordagem que abranja as duas vertentes e as faça comungar, é preciso que se defina o que é uma sociedade bem estruturada. Esse, sem dúvida alguma, é um outro problema, porque a tentativa de definir objetivamente o que é uma sociedade bem estruturada apenas servirá para opor visões de mundo.

A melhor forma de se buscar uma definição é recorrer a uma abordagem mais subjetiva. Nesse caso, pode-se adotar o conceito de felicidade. Uma sociedade bem estruturada é aquela onde as pessoas, ou, pelo menos, a maioria delas, são felizes.

A partir dessa afirmação, pode-se pensar no que faz as pessoas se sentirem felizes. Surgirão vários paradigmas, todos bastante aceitáveis, como a liberdade de fazer escolhas, viver em um ambiente de amor e acolhimento e em condições materiais que gerem conforto. A esses se somariam viver em segurança, sem medo, com acesso ao trabalho, ao lazer, ao conhecimento, ao autodesenvolvimento intelectual e espiritual.

Se todas essas coisas são importantes para que as pessoas possam ser felizes e uma sociedade bem estruturada é aquela em que as pessoas são felizes, então é correto afirmar que para que uma sociedade seja bem estruturada é preciso que a rede social esteja alicerçada nesses paradigmas. Em outras palavras, numa sociedade bem estruturada as pessoas vivem em segurança, as pessoas se sentem amadas e acolhidas, são materialmente prósperas, intelectualmente capazes e espiritualmente desenvolvidas.

Logo, o mais correto seria afirmar que uma sociedade bem estruturada, para existir, precisa ter essas quatro forças – família, escola, religião e política – contribuindo para esse equilíbrio. Sendo, portanto, incorreto atribuir a apenas essa ou aquela coisa a responsabilidade por prover as condições para que uma sociedade se estruture de forma satisfatória.

O que leva à desestruturação social

Quando se pergunta pelas causas da desestruturação de uma sociedade, ou seja, aquilo que leva à infelicidade coletiva, muitos podem pensar imediatamente nos conflitos. Sem dúvida, os conflitos fazem parte do próprio ser humano, que se conflita consigo próprio e com Deus, mas fossem eles a causa da desestruturação, não haveria uma única sociedade bem estruturada. Tanto que, para isso, existe a lei, o direito e o poder policial. A lei é um contrato social aceito por todos, pelo menos em um regime democrático, e as punições uma garantia de que ela será cumprida.

Da mesma forma, mecanismos de proteção institucional aos trabalhadores nas relações com os patrões servem para neutralizar eventuais conflitos e garantir que a sociedade seja mais justa. Pode-se, ainda, dizer que as sociedades bem estruturadas são as sociedades justas. Para que tudo isso funcione é fundamental que o poder político funcione dentro da premissa de gerar valor para toda a sociedade, transformando impostos em serviços de qualidade, mediando conflitos e garantindo que as relações sociais aconteçam de uma forma justa.

Para que se chegue a uma sociedade justa, é preciso um conjunto de conhecimentos e valores. É correto afirmar que a religião, a escola e a família são as bases da sociedade, pois compõem, juntas, o processo de formação do indivíduo. Há quem possa questionar que se coloque a religião nesse pacote, mas mesmo a ausência dela é um influenciador da formação do indivíduo.

Se não há educação, se ela é deficiente, se não forma cidadãos e/ou profissionais qualificados, se a religião não contribui para uma boa formação moral e se a família é desestruturada, tem-se o caminho aberto para a formação de um mau cidadão, que contribuirá para a formação de uma sociedade desestruturada moral, material, espiritual, emocional e intelectualmente.

A família e o indivíduo no processo de desestruturação social

Sem dúvida alguma, uma família desestruturada contribui frontalmente para uma sociedade desestruturada. É fácil compreender isso se pensarmos num sistema composto por milhares de células. A família é cada uma dessas células. Se não funciona, compromete todo o sistema.

A família tradicional era bem estruturada, pelo menos do ponto de vista formal. O fato de ter uma família formalmente bem estruturada jamais foi garantia de que os rebentos se tornassem bons cidadãos. Uma família pode ser estruturada formalmente, mas desestruturada moralmente. Dessa forma, o que temos é uma célula que irá contaminar todo o sistema. Da mesma forma, uma família bem estruturada, formal e moralmente, irá, sem dúvida, ter membros menos vulneráveis a um ambiente externo imoral e violento.

O grande problema é que uma série de fatos históricos recentes desfigurou a família tradicional. As mulheres adquiriram uma outra postura perante o casamento, a profissão e os relacionamentos. O mundo vive uma notável onda de egoísmo e individualismo, que contribui para o isolamento das pessoas. A expectativa de vida aumentou consideravelmente, oferecendo mais tempo para o desgaste das relações matrimoniais.

Hoje, a sociedade precisa se adaptar rapidamente às suas próprias transformações, porque as coisas mudam muito rapidamente.

Sem dúvida alguma, a questão da dissolução da família tradicional ajuda a desestruturar a sociedade, porque deixa os indivíduos sem referência. A abordagem restrita a essa questão não leva, todavia, à solução dos problemas da sociedade. Talvez porque a família não seja a parte menor, mas o indivíduo. Um ser humano é um universo complexo e maravilhoso. É o indivíduo que toma decisões, que paga impostos e escolhe seus caminhos. Logo, é preciso entender que para que haja uma sociedade estruturada é necessário que haja indivíduos bem estruturados, o que leva de volta aos quatro elementos: família, educação, religião e política.