Escola e Diferenciação Social


Diferenciação Social

Tendo-se em conta uma sociedade homogênea, em que não haja grandes desigualdades econômicas e de acesso a bens culturais, a atuação da escola como instrumento de diferenciação social estaria limitada ao seu aspecto meritocrático.

O modelo de educação vigente na maior parte dos países retrata o caráter competitivo da sociedade, principalmente em seu aspecto capitalista. O mérito é relacionado ao desempenho, que diferencia os alunos entre si. Aquele dotado de maiores habilidades de aprendizado e maior capacidade de dedicação são, naturalmente, aqueles que ocuparão o topo da pirâmide escolar.

Em tempos recentes, era muito comum que as empresas investigassem o desempenho escolar daqueles que se candidatavam a vagas em sua estrutura, associando a maior possibilidade de melhor desempenho à performance escolar. Supõem-se que aqueles capazes de um melhor desempenho escolar seriam os mais capacitados para vencer no mercado de trabalho e ocupar as funções mais nobres e bem remuneradas na sociedade.

Esse conceito se reforça no ambiente em que o serviço público remunera melhor que o setor privado, além de conferir estabilidade no emprego e outros benefícios exclusivos ao servidor. A admissão por meio de concurso público é uma forma de absorver o que seria, em tese, a mão de obra mais qualificada.

Contradição entre meritocracia escolar e papel fundamental da educação

Essa visão da escola como promotora de diferenciação, estímulo à competição e, mais recentemente, como produtora de mão de obra esbarra em sérias críticas, uma vez que o papel fundamental da educação e do ensino é formar cidadãos, pessoas dotadas de capacidade de se articular e se inserir no contexto social de uma forma positiva.

O incentivo à diferenciação por desempenho só faz sentido enquanto preparação para uma sociedade competitiva. Mesmo a sociedade competitiva, não obstante, precisa de cidadãos, de pessoas capazes de refletir e transformar o meio.

Contradição do pensamento meritocrático

A outra contradição está presente na forma como o ensino é distribuído pelas diversas camadas da sociedade. Num país como o Brasil, marcado pela desigualdade entre classes sociais, a ideia meritocracia carece de substância que lhe dê viabilidade e coerência.

Nesse sentido, a escola como fator de diferenciação social não se sustenta na meritocracia, mas na distribuição das oportunidades. A qualidade do ensino é proporcional à categoria social. Para obter uma boa educação para seus filhos, os pais procuram o ensino particular, onde poderão ter uma melhor educação que nas escolas públicas. Em outras palavras, tal forma de distribuição do ensino tende a estabelecer um modelo com baixo índice de mobilidade social.

A privatização do ensino, inclusive superior, em voga no final do século passado, ampliou esse abismo social. Além dos aspectos econômicos, que afastam as camadas mais necessitadas prematuramente da escola, e da própria diferenciação da qualidade do ensino, há um terceiro aspecto, que faria toda a diferença mesmo em condições em que todos tivessem oportunidades iguais, que é o meio ambiente.

Estudos mostram que crianças que convivem com pais melhor educados, com acesso a bens culturais, possuem maior capacidade de rendimento escolar que aquelas que convivem em ambientes precários. Dessa forma, pode-se deduzir que a escola diferencia, sim, não pelo mérito, mas pela exclusão.