Mudanças Históricas: da Revolução Científica às Revoluções do Século XVIII


Como surgiu a Sociologia? Quais as precondições sociais, políticas, econômicas e culturais que permitiram e presidiram o surgimento dessa nova forma de conhecimento? A Sociologia estuda a sociedade como um todo, além de todos os fenômenos sociais específicos. Dessa maneira, é possível fazer um estudo sociológico do surgimento da própria Sociologia.

Na verdade, mais que uma possibilidade, esse estudo é necessário, para que se tenha clareza a respeito das condições intelectuais, morais, filosóficas, econômicas e sociais para o desenvolvimento do conhecimento socio­lógico: afinal de contas, embora cada sociedade tenha necessariamente uma concepção sobre si mesma (na forma de ideologias, cultura, valores, auto justificações, etc.), não foram todas as sociedades humanas que desenvolveram uma ideia racional sobre si ou uma concepção ordenada, passível de revisão sistemática e contínua. Em poucas palavras, não foram todas as sociedades que produziram uma concepção propriamente científica sobre sua orga­nização, seu modo de funcionamento, suas instituições e suas crenças.

As condições intelectuais do surgimento da Sociologia podem ser encontradas muito longe, desde a Grécia Antiga, com o racionalismo grego, passando pela Idade Média e pelas influências mútuas entre o Ocidente e outras civilizações (por exemplo, os árabes), até os principais pensadores políticos dos séculos XVII e XVIII, tais como Hobbes, Locke, Montesquieu e Rousseau.

Revolução Científica às Revoluções do Século XVIII

Entretanto, esse caminho exigiria que se fizesse uma digressão muito grande. Assim, saindo da história do pensamento para encontrar a história real, é preciso considerar três grandes mudanças sociais ocorridas a partir do século XVII e que influenciaram diretamente o surgimento da Sociologia: a Revolução Científica, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa.

A Revolução Científica consistiu na afirmação do espírito de pesquisa e de investigação racional da realidade, a partir de uma concepção imanentista (ver Conceito sociológico no final desta unidade) e naturalista do mundo, que rejeitava explicações transcendentais e sobrenaturais (ver Conceito sociológico no final desta unidade).

Em outras palavras, a referência a Deus ou à autoridade dos grandes pensadores (por exemplo, de Aristóteles) deixou de ser aceita como critério para a afirmação do que é verdadeiro. No lugar disso, assumiu-se que somente a partir da observação direta dos fenômenos (principalmente naturais) e com teorias racionais e passíveis de dis­cussão e verificação empírica (ver Conceito sociológico no final desta unidade) seria possível conhecer o mundo e obter uma compreensão suficiente dele.

Os três grandes nomes iniciais dessa mudança na maneira de perceber as coisas e entender o mundo foram o francês René Descartes (1596-1650), o inglês Francis Bacon (1561-1626) e o italiano Galileu Galilei (1564-1642).

Descartes, autor do Discurso sobre o método (1637), é considerado o fundador da Filosofia moderna. Para ele, cada indivíduo deve obter a verdade por meio do exame racional das afirmações, recusando a mera autoridade como argumento de correção. Não mais bastava que um pensador de grande reputação tivesse afirmado algo para que se aceitasse isso como verdade; era necessário que tal afirmação fosse submetida à crítica e à avaliação individual pelos outros pensadores e pesquisadores. Além disso, Descartes afirmou que se devia proceder do mais simples ao mais complexo para resolver os problemas, isto é, que cada questão devia ser dividida em várias partes (conforme o pesquisador julgasse adequado), e que essas partes deviam ser ordenadas de acordo com o grau de complicação: as mais simples seriam resolvidas antes; e as mais complicadas, depois.

Bacon afirmava, no livro Novum Organum (1620) que apenas as afirmações baseadas em observações em­píricas eram aceitáveis como verdadeiras: o que não proviesse, de alguma forma, da observação direta não era verdadeiro. Além disso, as afirmações deviam ser postas à prova por meio de experimentos empíricos. Ao mesmo tempo, ele criticou o que chamou de “ídolos”, isto é, os hábitos de pensamento e os preconceitos que impedem o conhecimento da realidade: a tendência a generalizar com base nos casos favoráveis (“ídolo da tribo”), a pressão dos costumes e dos hábitos (“ídolo da caverna”), os maus usos da linguagem (“ídolo do fórum”) e a pressão da autoridade (“ídolo do teatro”).

Galileu, nos livros O mensageiro das estrelas (1610) e Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo (1630), demonstrou inúmeras descobertas científicas por meio da conjugação de hipóteses bem elaboradas e de experimentos empíricos, além de ter inventado diversos instrumentos de pesquisa, como o telescópio, o termômetro, o cronometro e assim por diante. Ele afirmava que a linguagem da natureza era a linguagem da Matemática, permitindo o estudo da realidade com métodos quantitativos (ver Conceito sociológico no final desta unidade) e objetivos, necessários à ciência moderna.
Esses três pensadores criaram filosofias que não eram necessariamente compatíveis entre si, mas que, aos poucos, puseram fim à concepção medieval (teológica e mágica) de pensar e à organização social que se mantinha com base nessas ideias.

O primeiro grande êxito da ciência foi a teoria da gravidade de Isaac Newton (1643-1727), que explicou os fenômenos mais gerais e mais impressionantes que o homem conhece (a Mecânica Celeste) e consagrou o modelo mecanicista (ver Conceito sociológico no final desta unidade) de explicação da realidade.

A ciência ampliou cada vez mais seu escopo de atuação e forneceu elementos para a crítica social e moral. Essa crítica foi representada pelo Iluminismo ao longo do século XVIII, com vários pensadores e políticos, dos quais indicamos em particular Denis Diderot (1713-174) e Jean d’Alembert (1717-1783), organizadores da Enciclopédia, que procurava sistematizar o conhecimento científico, técnico e artístico da época. A segunda grande mudança social importante que está na origem do surgimento dessa nova forma de compreender e explicar o mundo dos homens.

Revolução Industrial. O que foi isso?

A Revolução Industrial foi um processo iniciado em meados do século XVIII e que tomou vulto no final desse século. Desde o fim da Idade Média, assistia-se ao surgimento e à organização de uma classe social dedicada à produção manufatureira, às trocas comerciais e à intermediação do crédito. Chamada de burguesia, sua importância e seu poder vinham da riqueza que concentrava e geria. Na Idade Moderna, os reis desenvolveram cada vez mais uma política simbiótica1 com a burguesia: apoiavam-nos política, social e economicamente, em troca do financiamento de seus projetos e da restrição do poder da nobreza.

Ao longo do século XVIII, os desenvolvimentos científicos passaram a ser utilizados em atividades práticas da burguesia, em particular para o aumento da produtividade do trabalho: as máquinas a vapor, de James Watt, são o grande símbolo disso.

Ao mesmo tempo, o trabalho racionalizou-se, no sentido de que cada trabalhador passou a realizar uma única tarefa em uma cadeia produtiva em cada fábrica, em vez de ocupar-se de todas as fases da produção. Esses fatores – melhoria da tecnologia e racionalização da divi­são do trabalho – foram determinantes para o aumento da produção econômica, gerando um padrão que se difundiu pela Inglaterra, França e pelo resto da Europa.

A Revolução Industrial reforçou a tendência de urbanização; o campesinato virou operariado, e passou a viver nas redondezas das fábricas, abandonando os há­bitos antigos, mas sem poder constituir novos hábitos. Enquanto a burguesia enriquecia cada vez mais, o proletariado empobrecia; trabalhava em jornadas de 14, 16, 18 horas diárias, sem diferenciação entre homens, mulheres, crianças ou idosos, e recebia salários de fome. Desse modo, a divisão de classe entre burguesia e proletariado tornava-se cada vez mais evidente. O poder econômico da burguesia levava-a a ambicionar o poder político, e a miséria material e moral do proletariado convertia-se em distúrbios sociais e políticos.

No século XIX, esse conjunto de elementos tornou-se explosivo e exigiu a reflexão de pensadores e políticos para tentar solucionar esses problemas. Em terceiro e último lugar, a Revolução Francesa foi o evento mais imediato que resultou na criação da Sociologia.

Suas causas gerais podem ser indicadas como segue: no decorrer do século XVIII, devido à ação dos filósofos e escritores iluministas, o con­junto dos princípios que organizavam a sociedade francesa (os privilégios senhoriais, a sociedade dividida com base em “ordens” hereditárias, o poder absoluto do rei) perdeu a legitimidade. Eles não eram mais vistos como aceitáveis ou justos. Almejava-se uma nova sociedade, mais livre, mais igualitária e mais fraterna.

A capacidade de ação dos governos era pequena, pois os recursos públicos eram destinados à manutenção da nobreza e do clero e à realização de diversas guerras; além disso, havia preconceitos muito fortes contra a participação do “terceiro estado”, isto é, da burguesia e do povo na administração pública. Ao mesmo tempo, a burguesia, que já tinha o poder econômico, almejava também controlar o poder político. O proletariado (urbano e, acima de tudo, rural) era miserável e estava insatisfeito com os desmandos dos senhores locais e da Igreja. Tudo isso convergiu para os eventos de 1789.

Devido à participação em guerras – em particular na guerra de independência dos Estados Unidos -, o Estado francês não tinha mais recursos e foi obrigado a convocar os “Estados Gerais”, isto é, a fazer uma reunião das forças sociais do reino para solicitar um aumento nos impostos. Ao fazê-lo, permitiu que os franceses apresentassem suas queixas e reivindicações, que seriam examinadas. Em um ambiente que já era conturbado, isso agitou a população, em particular o terceiro estado (a burguesia e o proletariado). Em 1789, ao reunirem-se os Estados Gerais, o terceiro estado recusou–se a seguir os procedimentos tradicionais (voto por estado) e a tratar dos temas propostos pelo governo, decidindo, em seu lugar, discutir as reformas políticas e sociais que julgava necessárias.