Surgimento da Sociologia: do Século XVII Pará o Século XIX


Os eventos da Revolução Francesa seguiram um ritmo frené­tico. Em poucos anos, entre 1789 e 1799-1802, o Estado francês passou de monarquia absoluta para a monarquia constitucional (com os poderes do rei limitados por uma constituição), para uma República (com presidente no lugar do rei), seguida de um império (1804-1814).

Durante esse período, decretou-se o fim do antigo sistema de propriedade da terra, das corporações de ofício, das instituições científicas, das ordens religiosas; mudou-se o calendário e os nomes dos meses; assim como se propôs o sistema métrico decimal. Todas essas mudanças resultaram em fuga da nobreza e do clero e revoltas no interior, conduzindo a guerras externas (contra várias coalizões das outras monarquias e potências europeias) e internas. Isso, por sua vez, levou ao fortalecimento do poder Executivo e ao intenso policiamento de traidores. Em 1799, assumiu o poder, como cônsul, um jovem general de origem corsa e, em 1802, foi transformado imperador da França: a ascensão de Napoleão Bonaparte, tradicionalmente, marca o fim da Revolução Francesa.

Surgimento da Sociologia

A Revolução Francesa marcou o fim de uma era histórica e iniciou outra. Além disso, estabeleceu os termos dos debates políticos – por exemplo, a oposição direita/esquerda – bem como os ideais de “Igualdade, Liberdade, Fraterni­dade”. A sucessão de governantes com base nas dinastias foi substituída pela ideia de nação como fonte de organização do poder; deixou de haver súditos, que se transformaram em cidadãos. A igualdade perante a lei e a racionalidade tornaram-se parâmetros básicos na vida social e política – assim como, depois se perceberia, o nacionalismo.

Por esses motivos, a Revolução Francesa foi objeto direto de análise de vários sociólogos: Auguste Comte (1798-1857) desenvolveu suas ideias com base nela, assim como Alexis de Tocqueville (1805-1859) procurou entender a passagem do Antigo Regime para a nova sociedade; Karl Marx (1818-1883), por seu turno, procurou interpretar em termos materialistas esse evento político e social.
epistemologia e ciências sociais: o que É ser ‘científico”?

O que significa ser “científico”? Sabe-se, de acordo com o que foi visto até aqui, que a Sociologia exigiu algumas condições sociais, políticas, intelectuais e econômicas para surgir, mas a própria ideia de ciência da sociedade pode significar várias coisas, dependendo de como se entende a ciência. O que está em questão, nesse caso, são dois grandes temas:

1. O que diferencia, em termos gerais, a ciência da religião e da Filosofia?
2. O que distinguiria uma ciência da sociedade das Ciências Naturais?

Filosofia, ciência e religião

Para começar a compreender o projeto intelectual da Sociologia, é preciso referir-se às diferenças entre Fi­losofia, ciência e religião.

Não é possível resumi-las em um ou dois parágrafos, nem mesmo percebê-las de maneira estática, pois no decorrer do tempo essas três formas de pensamento modificaram-se. Além disso, a maneira como definimos cada uma das palavras que utilizamos modifica o relacionamento que se pode estabelecer entre elas: o senso comum assume uma perspectiva, os sociólogos outra(s), os filósofos outra(s) e assim por diante.

Desse modo, temos que adotar algumas definições iniciais, que servirão apenas para podermos tratar, neste momento, do relacionamento entre Filosofia, ciência e religião.

Podemos considerar a religião como uma forma de compreender a realidade e dar-lhe sentido fazendo referência a seres supra-humanos, dotados de vontades absolutas, sediados em uma dimensão transcendental2 e capazes de interferir, mais ou menos a seu bel-prazer, em nossa realidade – os deuses. A religião exige intérpretes da vontade dos deuses – os sacerdotes. Eles são aqueles capazes de dizer o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mal, o que é virtuoso ou não e assim por diante.

Nesse sentido, as concepções religiosas de mundo são absolutas. O que a religião afirma é a verdade por definição e deve ser aceita pelos crentes, não havendo a preocupação em se verificar se o que se diz corresponde de fato à realidade.

A Filosofia é uma reflexão geral sobre a realidade e sobre o ser humano, afastada das considerações teológicas (ou religiosas). Essa reflexão questiona sobre o que é viver, o que são os seres humanos, o que é viver em comum e assim por diante. Nesse sentido, a Filosofia é uma atitude perante a vida, realizada pelos indivíduos de maneira espontânea e pelos filósofos profissionais de maneira sistemática. Cada pensador adota premissas, perguntas e formula respostas a elas, tirando daí consequências específicas no plano das ideias e das práticas. São elas, prin­cipalmente as primeiras, que vão compor o seu sistema filosófico. Esse sistema é uma articulação de conjuntos de ideias mais ou menos coerentes entre si. A Filosofia possui o que se pode chamar de perspectiva sintética, que é compartilhada, aliás, pela religião.

Por fim, vejamos a ciência. Ela é uma forma de investigar aspectos específicos da realidade a partir de uma concepção imanentista do mundo.

Uma concepção imanentista é aquela que considera que a realidade na qual vivemos é a que importa e a que deve ser entendida. Se houver outras realidades, outras vidas (após a morte, por exemplo), elas não são objeto de interesse para a ciência. Por isso, algumas vezes o imanentismo também é chamado de materialismo (Ver Conceito sociológico no final desta unidade), embora essa denominação não seja muito precisa.