Xamanismo


Muito antes da arte, da ciência e da religião existirem tal como são hoje, já existiam conceitos similares a eles. Isso porque tais conceitos são típicos de uma vida em sociedade. Por exemplo, nenhum monge reza sozinho, mas sim em um mosteiro com outros monges. Ninguém pinta um quadro ou faz uma escultura para que não seja vista, e nenhuma religião possui documentos para que não sejam lidos e, o que está nele, praticado.

Xamanismo

Mas como é possível que tais conceitos existiram antes e depois dos gregos antigos, a primeira civilização documentada, contando com cidades e estruturas sociais complexas? Através de uma técnica arcaica, mas praticada por sociedades tribais ao redor do mundo todo: o xamanismo.

Entendendo o conceito

Iniciamos o texto falando sobre arte, religião e ciência porque no conceito em tela todos eles viviam de forma coletiva, com fronteiras definidas. Este é um bom ponto de partida para começarmos a definir o xamanismo.

Mas a etimologia da palavra também pode ser de grande ajuda. Xamanismo provém de samam, que na língua siberiana manchu-tungus significa algo como “conhecer, aquele que conhece”. Em tupi, o equivalente para esta palavra seria “pajé”.

Dessa maneira, o termo faz referência àquilo que designa no mundo real, ou seja, o xamã, que dentre outras atribuições se encarregava de transmitir o conhecimento por meio de narrativas, conhecer o poder de cura de plantas e animais, guardar e transmitir a história de sua tribo e estar em contato direto com o plano além do material.

O filósofo romeno Mircea Eliade cunhou a definição mais aceita de xamanismo. Segundo ele, o termo pode ser definido como “técnicas arcaicas de êxtase”.

O êxtase, obtido pelo xamã por meio de sons repetidos na mesma frequência, com tambores ou outros instrumentos de percussão, ou por meio da ingestão de substâncias que possuem princípios neuroativos como fungos e plantas, permite que ele em contato com a dimensão além dessa.

O mais surpreendente para historiadores e outros especialistas é que esta prática era e ainda é encontrada em diversas partes do mundo, como a Sibéria, Amazônia e Austrália, indicando que ela possa ter uma origem comum à maioria dos lugares da terra. Para muitos, é tida como a religião praticada na idade da pedra.

Aspectos do xamanismo

Como já dissemos, com apenas algumas exceções, quase todos os “mandamentos” xamânicos são partilhados pelas tribos ao redor do mundo. Dentre eles temos o respeito a natureza, a necessidade de expandir a consciência para obter respostas, o reconhecimento de que há algo superior e sagrado a nós mesmos, e o amor incondicional, além das viagens por mundos que não pertencem a este plano mas que são acessíveis a partir dele.

É do xamanismo que surgiram os elementos naturais e suas relações com o sagrado (as divindades) e o profano (nós mesmos). Dessa maneira, temos que:

  • A Terra está diretamente ligada ao corpo físico e às sensações que ele sente;
  • O ar é relacionado com aquilo que não é visível e nem palpável, como a mente e as ideias;
  • A água em movimento é relacionada com as emoções e sensações do existir e da alma;
  • Por fim, o fogo está relacionado com os espíritos, com a claridade e com a consciência.

Apesar destes quatro elementos terem cada um o seu significado, eles também fazem sentido como um todo. Eles representam a plenitude com o universo, pois para sobreviver em um ambiente bastante hostil, como os da idade da pedra, era necessário ter respeito à natureza e a todos seus animais, às estações do ano e aos fenômenos naturais produzidos por ela, como a chuva, a neve, a seca, as fases da lua, etc.

Por tudo o que foi dito até aqui, podemos inferir que os caminhos dos xamânicos eram espirituais, e as técnicas de êxtase por meio do uso de substâncias capazes de alterar o estado de consciência tinha um objetivo bastante claro, diferente do objetivo com o uso das drogas de hoje em dia.

Mas não bastava apenas utilizar essas substâncias, pois qualquer um que as utilizasse teria seu estado de consciência alterado. Era necessário, antes de mais nada, saber navegar pelos caminhos que eram abertos na mente e na consciência para conseguir, enfim, alcançar a sabedoria divina e entrar em uma nova sintonia de conexão com si mesmo, com o planeta e com tudo o que era pertinente.
Por fim, mesmo que a filosofia maçônica não seja adotada pelas sociedades modernas, embora algumas tribos ainda a adotem (a exemplo de várias etnias indígenas brasileiras), ela tem muito a nos ensinar.

Com o consumismo e religiões que apontam para uma vida externa a essa (o céu ou o paraíso), nos esquecemos de viver o aqui e o agora. Isso leva, dentre outras coisas, à desigualdade, à sensação de isolamento e solidão, e à exploração predatória dos recursos naturais, em total desconexão com o planeta e com nós mesmos.