Educação, Escola e Sociedade


Dissemos que a educação como processo de socialização é parte constitutiva e crucial para a organização e manutenção de qualquer sociedade. É por meio dela que os indivíduos são adaptados à vida social. Ela consiste, essencialmente, na transmissão para as novas gerações não apenas de conhecimentos, informa­ções, mas de valores e convenções.
A educação é um processo demorado, delicado e, por vezes, tenso. Cada sociedade ou grupo social elabora maneiras próprias de transmissão de seus valores fundamentais.

Em sociedades tradicionais (ver Conceitos sociológicos no final da unidade), a educação se realiza, sobretudo, por meio da transmissão oral dos conhecimentos produzidos coletivamente.

Escola e Sociedade

Nas sociedades complexas (ver Conceitos sociológicos no final da uni­dade), há uma trama sofisticada de instituições que se dedicam a propagar valores e condutas comuns. Conforme mencionamos na unidade anterior, por vezes até mesmo a indústria de bens culturais colabora com essa tarefa. Entretanto, pode-se afirmar que, nessas sociedades, embora não seja a única esfera de educação e instrução, a escola é a instituição especiali­zada na prática de ensino e na reprodução dos conhecimentos. Torna-se, portanto, uma instituição crucial, cujo desempenho é decisivo para o destino das pessoas e das nações. Partindo dessa constatação, nesta unidade dis­cutiremos detalhadamente o papel da escola na vida social atual. Traremos alguns dados que demonstram quando e como ela se constituiu uma insti­tuição central da sociedade contemporânea. Analisaremos esse fenômeno de maneira panorâmica, mas convidamos o leitor para uma reflexão acerca dos desafios e das possibilidades do contexto brasileiro.

Conteúdos escolares

Os conteúdos que se transmitem na escola são aqueles imperativos para o desenvolvimento das habilidades e competências julgadas necessárias para a reprodução de cada grupo social.

centralidade da escola a partir do século XX

O sociólogo André Petitat afirma que a instituição escolar, tal como a conhecemos hoje, começou a se constituir após a Idade Média nos centros urbanos. A partir do século XVIII, com a consolidação do capitalismo, a sociedade reclamou uma escola capaz de favorecer o desenvolvimento da ciência e da indústria.

A escola passou, nesse sentido, a valorizar principalmente os conteúdos demandados para a produção de bens e serviços (Matemática Financeira, Mecânica, Química Orgânica, etc.). Os conteúdos ligados à formação artística, religiosa ou filosófica, desinteressados da aplicação prática imediata, foram sendo cada vez menos valorizados. Dessa maneira, a hierarquia de prestígio que há entre as diferentes disciplinas não corresponde ao valor intrínseco delas, mas à utilidade de cada uma para a vida econômica contemporânea.

Até muito recentemente, a escola estava destinada a uma pequena parcela da população, pois a promulgação de leis que definiram a obrigatoriedade do ensino básico na maioria dos países europeus é, em termos históricos, mais ou menos recente.

A obrigatoriedade do ensino básico exigiu a formação de sistemas escolares públicos. Um bom número de escolas foi então organizado e mantido pelo Estado. Especialmente nas décadas de 1950 e 1960, uma parcela significativa da população dos países europeus teve acesso ao Ensino Fundamental e Médio. No mesmo período, em alguns países, como Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha e Itália, o acesso ao Ensino Médio e Superior estendeu-se às classes que, historicamente, só chegavam à educação básica.

Para que tenhamos uma ideia da expansão do ensino escolar nos países centrais, basta ver que em 1840 a média de anos de estudos da população francesa era de pouco mais de cinco anos, ao passo que em 1960 os franceses já ficavam na escola por um período de 12 anos.
O aumento considerável da escolaridade no período que vai do fim da Segunda Guerra (1945) até a década de 1960 esteve relacionado às mudanças do contexto socioeconômico. Os países que eram então chamados de Primeiro Mundo viveram nessa época, após a reconstrução das cidades arrasadas pela Segunda Guerra Mundial, grande expansão econômica e demográfica. O crescimento da população e das oportunidades econômicas exigiu uma ampliação jamais vista do sistema de ensino.

Deve-se também lembrar que durante o período de vigência da Guerra Fria (1945-1989), especialmente na década de 1960, a competição tecnológica e científica entre os países assumiu contornos mais decisivos. Nesse sentido, a sociedade que nasceu da destruição produzida pela Segunda Guerra Mundial era uma sociedade em que o conhecimento desempenhava um papel fundamental, estratégico para o destino econômico e político das nações.

Nas décadas de 1950 e 1960, o nível de competitividade econômica dos países passou a ser avaliado com base no nível de formação técnica e intelectual de sua mão de obra. O termo capital humano foi então adotado para designar os recursos humanos que, juntamente com os recursos materiais e naturais, compunham o patrimônio de determinado país.
Esses foram os fundamentos a partir dos quais, nas décadas de 1950 e 1960, os governos dos países de Pri­meiro Mundo promoveram reformas educacionais a fim de investir em seu capital humano. A educação passou a ser considerada um recurso decisivo para garantir um futuro promissor. Temas, como programas de alfabetização, ampliação da escolarização de jovens e adultos, combate da evasão escolar, acesso à educação superior, entre outros, passaram a compor a agenda política dos governos nacionais.

A medida fundamental para elevar o nível de instrução da população foi a massificação da educação es­colar. A partir de meados do século XX, cada vez mais alunos passaram a ir à escola por mais tempo. Por isso, desde esse período a escola passou a se constituir uma instituição fundamental da sociedade ocidental moderna. Uma instituição na qual se define o destino das nações no concerto mundial e na qual os indivíduos passam alguns dos anos mais decisivos de sua vida.

Ao mesmo tempo em que a escola emergiu como uma instituição crucial apareceu também um novo perso­nagem demográfica e socialmente significativo: o estudante.

Tornaram-se tão crucial a escola e tão notáveis e ativos os jovens estudantes que houve, nas principais cidades do mundo, uma mobilização sem precedentes para a discussão acerca do papel e do funcionamento do sistema educacional. Os métodos de ensino e avaliação, que continuavam ainda a funcionar nos moldes tradicion­ais, não pareciam adequados para as novas funções da escola e para as demandas dos novos estudantes que eram originários de classes muito diversas. Discutiu-se então a hierarquia escolar e universitária, os funda­mentos da autoridade, o sistema de avaliação e os rituais acadêmicos. Essa discussão acerca da escola e da universidade acabou por resultar em uma grande revolução cultural. Protestos estudantis assumiram proporções inimagináveis até meados dos anos 1960. Grandes movimentos eclodiram por todo o mundo, so­bretudo na França (em particular nas universidades de Nanterre e Sorbonne), no famoso episódio conhecido como Maio de 1968.