Voo do 14-Bis


Já dizia Joseph Goebbels, artífice da propaganda do Terceiro Reich, durante a Segunda Guerra Mundial, provocada pela sanha totalitária do regime nazista de Adolf Hitler, que “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”.

Voo do 14-Bis

Em agosto de 2016, por ocasião da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ressurgiu das cinzas uma velha e inusitada disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre a paternidade da aviação, tema acerca do qual não deveria caber qualquer dúvida ou reivindicação estadunidense.

Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, uma réplica do 14-Bis, o primeiro avião da história, inventado pelo brasileiro Santos Dumont, sobrevoou o Maracanã, famoso estádio do Rio de Janeiro, provocando delírio na plateia. Era, como a própria Olimpíada, um símbolo dos raros momentos de exercício de autoridade da ainda incipiente civilização brasileira.

Para completar o espetáculo, um ator, representando Santos Dumont, acenava para a plateia, repetindo um ato do inventor do avião ao pilotar o 14 Bis no céu de Paris, no ano de 1906.

Tal ato provocou, todavia, indignação em muitos estadunidenses. Uma indignação sem qualquer amparo na realidade, fruto da propaganda engendrada a partir da década de 20 do século passado, quando os americanos do norte decidiram proclamar os irmãos Wright como os inventores do avião, se apropriando do mérito brasileiro com o uso de propaganda sistemática, que envolveu o governo e a imprensa local.

Não só convenceram os nativos, como a versão descabida se espalhou pelo mundo nas décadas seguintes, comprovando a força da máxima goebbeliana. Porém, por mais que muitos reconheçam uma mentira repetida mil vezes como verdade, a mentira não é capaz de mudar os fatos.

O 14-Bis

Alberto Santos Dumont nasceu no ano de 1873, descendente de avós franceses, na cidade de Minas Gerais hoje batizada com o seu nome – um justo tributo a um dos maiores personagens da história da humanidade e declarado patriota brasileiro.

Santos Dumont foi, como comprovam todos os registros da época, o primeiro homem a voar em aparelho mais pesado que o ar. Em outras palavras, é o pai da aviação como conhecida hoje.

O 14-Bis foi o primeiro avião a cumprir todos os requisitos básicos de voo com a utilização apenas de meios de bordo. A saber, táxi, decolagem, voo nivelado e pouso, sem utilização de qualquer mecanismo de impulsionamento externo.

O voo histórico do 14-Bis foi testemunhado por uma multidão, filmado por uma companhia cinematográfica, reconhecido e homologado pelo L´Aero-Club de France, órgão oficial da aviação na época.

Dumont já se destacava entre os inventores da época com os aeroplanos mais leves que o ar, no caso, os balões livres e os balões dirigíveis, quando foi anunciado, em julho de 1906, o Prêmio Archdeacon. Essa premiação desafiava os inventores do mundo todo a apresentar um aparelho mais pesado que o ar, que voasse mais de 25 metros, de forma totalmente autônoma.

Dumont concluiria o 14-Bis no dia 18 de julho e 1906, fruto de estudos que vinham sendo realizados em segredo. No dia 23 daquele mês fez ensaios em público com o aeroplano sustentado por um dirigível nº 14. O 14-Bis era equipado com um motor de 24 Hp, movido a gasolina, tipo Antoinette, dotado de 8 cilindros (4×4, em “V”), cuja construção coube a León Levavasseur. As asas eram constituídas por seis células de Hargrave (formato de caixas), cada uma vazada nas duas faces, tendo as superfícies e seda japonesas. As armações eram de bambu e pinho, enquanto as junções estruturais e as hélices eram de alumínio e os cabos-de-comando de aço.

No primeiro grande voo, o 14-Bis possuía lemes dianteiros, configuração que mudaria nas invenções seguintes, em busca de maior estabilidade, caso do Demoiselle e dos aviões nº 15.

O primeiro avião do mundo tinha envergadura de 12 m, 19 m de comprimento, 4,8 m e altura, 80 m² de superfície das asas, 1,5 m de corda e 1,5 m de separação entre os dois planos das asas. Possuía, ainda, uma hélice de 2 pás, de 2,5 m de diâmetro e peso total, considerando o piloto, e 160 kg.

Aos fatos

No dia 23 de outubro de 1906, o 14-Bis voou a distância de 60 metros, chegando a uma altura de 3 metros. Um voo de 7 segundos, que levou o brasileiro à conquista do Prêmio Archdecon, superando em muito os 25 metros colocados como desafio.

A notícia ganhou a imprensa do mundo inteiro, inclusive a estadunidense, pela voz do New York Herald, que estampou a manchete: “The first Human Mechanical flight”. A Federação Aeronáutica Internacional reconheceu o feito do brasileiro. Menos de um mês depois, o 14-Bis repetiu a façanha, no dia 12 de novembro, ocasião em que foram feitas as medições pela FAI, de modo que o feito foi homologado. Na ocasião, o 14-Bis já voava à altura de 6 metros, percorrendo 220 metros, a uma velocidade média de 37,4 km/h.

Dumont voltou a superar barreiras no dia 12 de novembro, feito registrado pela “National Aeronautics”, veículo oficial da National Aeronautics Association, entidade estadunidense, sediada em Washington.

O famoso gesto de Dumont, saudando o público em pleno voo do Demoiselle nº 22, com os dois braços abertos e um lenço em cada mão, aconteceu já em 1909, durante voo em Paris.

O Flyer

Dois anos após o primeiro voo de 14-Bis, os irmãos Wright conseguiram superar todos os recordes de Santos Dumont, o que não deixa de cobri-los de méritos. No entanto, o Flyer, que pesava 300 kg, dependia de uma grande catapulta como plataforma de lançamento. Posteriormente, deram publicidade à versão de que já em 1903, em experimento secreto, que teve cinco testemunhas, realizaram um voo com o Flyer, usando um motor de 12 Hp, considerado impossível por especialistas em engenharia aeronáutica.

Para comprovar o suposto voo, apresentaram restos do Flyer e as cinco testemunhas do voo sigiloso, insuficiente para convencer os especialistas da época. Porém, no final da década de 20, os Estados Unidos conferiram status de comprobatórias às parcas evidências reunidas pelos inventores estadunidenses.