Molly Bloom – Ulisses


Considerada como a obra mais clássica do escritor irlandês James Joyce, Ullises é um dos romances mais importantes do século XX. Lançado em 1922, o livro consiste em uma adaptação do também clássico Odisseia, de Homero, no qual Odisseu, herói do romance de Homero, é Leopold Bloom. A obra consiste na narração de um dia na vida do protagonista.

Molly Bloom - Ulisses

Trata-se de uma obra bastante complexa e polêmica na época em que foi lançada, uma vez que narra diversos aspectos da fisiologia humana considerados como inaceitáveis na época, tanto que o livro foi censurado em diversos países, em especial nos Estados Unidos e na Inglaterra, países mais influentes.

A complexidade de obra fica por conta tanto de sua estrutura, dividida em 18 episódios, quanto pelo modo como a narrativa é organizada, considerada por muitos como caótica, fato que se justifica pela narração direta do fluxo de consciência dos personagens e pelo fato de não haver qualquer separação entre narrativa e descrição. De fato, muitas vezes não há sequer a indicação do personagem sobre o qual se fala.

No entanto, o que interessa a este artigo é a personagem Molly Bloom, esposa do já mencionado protagonista que aparece pela primeira vez no livro no episódio 4, Calipso.

A introdução e desenvolvimento de Molly Bloom

O capítulo 4 de Ulisses muda abruptamente o fluxo da narrativa que vinha sendo feita até então, pois ele se passa entre 8h e 9h da manhã, e tem como cenário uma casa no subúrbio de Dublin na qual vive Leopold Bloom, que está preparando um pequeno almoço para ele e sua mulher, Molly Bloom, que ainda se encontra na cama.

Para tanto, sai de casa para comprar rim de porco, e já de volta à casa o cozinha e leva para sua mulher, cujo verdadeiro nome é Marion, juntamente com uma carta do organizador de concertos Blazes Boylan. Antes de entregar a carta à sua mulher, lê uma carta escrita por sua filha, Milly. Por fim, o episódio termina com a ida de Leopold ao quintal, onde defeca enquanto lê o jornal.

A personagem só aparecerá novamente no décimo oitavo e último episódio da obra, Penélope, que consiste nos pensamentos de Molly quando está deitada ao lado de Leopold, de madrugada. Neste episódio, a personagem se lembra de vários episódios de sua vida, em especial no que diz relação ao sexo.

A personagem se põe a pensar sobre o já referido Boylan, seu amante viril e astuto, sobre diversos admiradores de seu passado, como o tenente Gardner, sobre a (sugestão) de uma relação homossexual que manteve na infância com sua amiga Hester Stanhope, outros acontecimentos de sua infância, sua carreira de cantora e, claro, sobre Leopold, seu marido pelo qual ela não tinha desejo mas possuía uma amizade. Esses pensamentos são constantemente interrompidos por distrações, como vontade de urinar ou o apito de uma comitiva que passa por perto da casa. O capítulo final do livro termina com a personagem lembrando sobre a proposta de casamento de seu marido e do seu “sim”.

Vale ressaltar que esse monólogo é considerado como o ponto alto do livro e como um dos episódios mais significativos de toda história da literatura.

O significado de Molly Bloom

Um dos aspectos mais interessantes da personagem Molly Bloom é sua caracterização enquanto mulher, em especial no último episódio da narrativa, que fornece uma imagem bastante completa da mesma. Trata-se de uma mulher que aceita livremente sua sexualidade, de uma mulher que às vezes está melancólica, que às vezes tem ciúmes de outras mulheres, que tem plena consciência das excentricidades de seu marido e que é bastante exigente com seus amantes.

No entanto, mesmo diante dessa caracterização bastante tangível, a personagem também se constitui como uma figura simbólica durante toda a obra, com diversas camadas de significado. Em primeiro lugar, porque ela pode ser considerada a personificação de uma deusa na terra ou, em outras palavras, uma mulher mundana no sentido mais positivo possível. Quando ela é apresentada no quarto episódio, sua caracterização dá a impressão ao leitor de uma mulher preguiçosa, em especial quando diz a Leopold “Se apresse com esse chá”, deitada na cama.

Ela é uma deusa mundana, mas em queda. Ela também é Calipso em um casamento infeliz, mas em que ela mesma se mantém. Seu amante, Boylan, é bastante insensível e bruto, enquanto que seu marido é quase um masoquista, uma vez que faz o café exatamente como ela ordena, dá um jeito dela ficar livre da filha Milly para facilitar o caso que sua esposa mantém com outro, abandona sua chave de casa com medo de acordá-la, compra seu hidratante, dentre diversos outros exemplos.

Não à toa, as próprias fantasias sexuais de Molly possuem um lado masoquista, já que um de seus livros favoritos é Ruby: the pride of the ring, que consiste em uma narrativa na qual uma mulher nua é seduzida por um homem sádico. A tudo isso, soma-se a dificuldade de Leopold de falar para ela como ele verdadeiramente se sente.

No entanto, o que James Joyce sugere através dos personagens Molly e Leopold é que a dor matrimonial acaba por se transformar em uma espécie de alegria, uma vez que ao final de seu monólogo a personagem não chega a considerar Boylan como seu futuro marido.